Raciocínio 71/200
Mais vale só do que mal acompanhado: e se este ditado estiver incorreto?

Motivação para viver, a busca pela felicidade através de um método de esforço cognitivo. O método que usamos é efetuado por etapas graduais. Será o encadeamento destas etapas que nos levará a entender este processo complexo constituído por 200 raciocínios.
Começaremos vários exercícios de motivação. Poderá comentá-los, ou enviar mensagem em privado para o nosso email:
Auto.ajuda.mundo@gmail.com

Iremos gradualmente e por raciocínios adquirir conhecimento motivacional. Sugerimos que comece pela 1° raciocínio para poder perceber o encadeamento dos raciocínios que iremos estabelecer, e faça a leitura ao seu ritmo. Basta em cima selecionar "Raciocínios" e 1/200, e depois por 2/200 e assim por diante.
Vamos fazer aqui um resumo de todos os raciocínios que já abordámos:
1/200 - O início de uma caminhada
2/200 - O problema de atribuir significado a pensamentos que não interessam
3/200 - Não permita que o passado exerça poder sobre si
4/200 - Transcenda as limitações do passado
5/200 - A mente e o poder incrível da imaginação
6/200 - Os rituais do imaginário
7/200 - Preferir a "felicidade" à "depressão"
8/200 - Vamos criar um raciocínio produtivo
9/200 - O problema da crença do poder da atração
10/200 - Escolher a felicidade e recusar a infelicidade (Parte 1)
11/200 - A explicação do nosso "segredo"!
12/200 - O problema da Ataraxia
13/200 - A emoção da tristeza
14/200 - Nós somos responsáveis pela maneira como nos sentimos
15/200 - A lei da fé
16/200 - O que fazer com a inveja
17/200 - Quando está tudo escuro e a luz que brilha está bem longe
18/200 - A Paz Interior o motor da vida (1/3): introdução
19/200 - A Paz Interior o motor da vida (2/3): o poder da recordação
20/200 - A Paz Interior o motor da vida (3/3): A regra do silêncio deixando de ter razão
21/200 - Retirar de nós a auto-piedade, auto-rejeição, auto-depreciação, auto-anulação (parte 1)
22/200 - Auto-acusação e Auto-piedade (parte 2)
23/200 - Esclarecimento sobre os "Autos"
24/200 - Tomar consciência dos pensamentos que temos
25/200 - Preferir a FELICIDADE em vez da infelicidade (Parte 2)
26/200 - Não tenha medo de errar
27/200 - Fortaleça a sua estabilidade interior
28/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 1): Introdução
29/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 2):
Projetar potência criadora numa dedicação integral com todos, da mesma forma e continuamente
30/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 3): ofereça presença
31/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 4): "Acolhimento" - 1ª Dimensão
32/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 5): "Acolhimento" (continuação)
33/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 6): "Apoio" - 2ª dimensão
34/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 7): "Apoio" - 2ª dimensão (continuação)
35/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 8): "Projeção" - 3ª dimensão
36/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 9): "Valorizar" - 4ª dimensão
37/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 10): "Entrar em sintonia" - 5ª dimensão
38/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 11): "ilumine o outro" - 6ª dimensão
39/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 12): "Como definir o Campo de Ação e o Poder de saber o nome" - 7ª dimensão
40/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 13): "Altere o seu olhar" - 8ª dimensão

41/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 14): "dar espaço ao outro" - 9ª dimensão
42/200 - Como ter potência criadora - 1 estratégia: IVA (imposto de valor acrescentado)
43/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (parte 1/4)
44/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): Um segredo que revelamos - A criação das redes de pequenas maledicências no trabalho (parte 2/4)
45/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): A dificuldade de tornar um assunto em não assunto (3/4)
46/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): na prática o que deixar de fazer (parte 4/4)
47/200 - Como ter potência criadora - 3 estratégia: Não chame os outros à atenção
48/200 - Como ter potência criadora - 4 estratégia: Cale-se por favor!
49/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégia: A história de Tolstói (uma reflexão)
50/200 - Como ter potência criadora: Finalmente - Os miminhos
51/200 - Relações horizontais e não verticais: a unilateralidade - parte 1
52/200 - Relações horizontais e não verticais: a autoresponsabilidade - parte 2
53/200 - O silêncio estúpido
54/200 - Eu adapto-me ou o outro tem de se adaptar a mim?
55/200 - Não compre guerras. O problema da conspiração
56/200 - A teoria dos Habitats: não floresça em microclimas
57/200 - O desconforto: o nosso campo de ação (parte 1)
58/200 - O desconforto: os contra-vontades (parte 2)
59/200 - Um jogo de energias - escolher ou acolher?
60/200 - Como atrair tudo até si
61/200 - Porque não vendemos nada e o nosso experimento social é gratuito - Parte 1
62/200 - Porque não vendemos nada e o nosso experimento social é gratuito - Parte 2 - O busílis
63/200 - Ação ou reação - A peça teatral, dão-nos um guião e escolhemos outro papel
64/200 - Um amor raro que faz relações durarem anos - Não precisamos que nos peçam desculpa
65/200 - Dance nas suas relações sem impor coreografia
66/200 - Não chame ninguém a atenção (parte 2): uma revolução nos relacionamentos - espalhe flores
67/200 - Quando os outros endurecem o semblante: a ponte caída
68/200 - O mimo como forma de resistência contra o endurecimento do mundo: use a cor que tiver
69/200 - Um experimento social de acolhimento: não escolhemos mas acolhemos
70/200 - A solidão e o mundo das conexões: a porta enferrujada 

Hoje iremos analisar o nosso Raciocínio 71/200 - Mais vale só do que mal acompanhado: e se este ditado estiver incorreto?

Há quem diga: "já não invisto nos relacionamentos. Estou bem sozinho!"

Repare que as relações são imperfeitas, existem muitas lacunas, e na verdade o ditado está errado. Não por ser "lógico ou ilógico", mas porque parte de uma ilusão, a de que a companhia só vale se for boa. 

O ditado quer proteger-nos da dor, mas sem querer ensinou-nos a fugir da vida.

Mas quem é que está inteiro o suficiente para ser boa companhia sempre? 
Quem é que nunca é um pouco ausente, um pouco injusto, um pouco fechado?

E ainda assim, todos estamos aqui. A viver. A cruzar olhares. A errar nos gestos. A desejar tocar, mesmo sem sabermos como.

O ditado falha porque julga antes de conhecer, antes de escutar, fecha antes de abrir. Sobretudo nega o que pode acontecer. 

Este é um ditado que tantas vezes serve de MURO, e perguntarmo-nos: "e se for possível transformá-lo em ponte?"

E se o disséssemos ao contrário? "Antes mal acompanhado do que só", não como resignação.

Antes de decidir, se é companhia "má" ou "boa", experimentar o lugar do entre, onde não há ainda rótulo, só presença.

Se pensarmos na unilateralidade, como a escolha de quem, sozinho, decide abrir-se mesmo sem retorno, há aí uma nobreza terna, uma força que não impõe, mas propõe.

E se a companhia for má, mas a nossa disposição for boa?

Quero explorar consigo a inversão do ditado. Se "antes só que mal acompanhado" é a proteção da unidade, a inversão é a provocação da abertura. E a ABERTURA é o GESTO LÚCIDO que propomos no Movimento de Motivação e Auto-Ajuda.

E se essa abertura for unilateral, isto é, se partir apenas de nós, sem garantia de acolhimento, reciprocidade, reconhecimento, aí entramos no território daquilo que temos vindo a expor.

O gesto que não depende do retorno, a ponte lançada mesmo que o outro nem perceba que estamos a fazer pontes.

Inverter o ditado não é apenas negar o seu conteúdo, é sugerir que a companhia, mesmo imperfeita, pode ser solo fértil para algo novo.

Estamos todos mal. Quando deixámos de falar. 
Quando magoamos quebramos o gesto da TERNURA

Eu preciso que entenda que por vezes os que nos ferem, ainda assim nos transformamE precisamos tanto desses confrontos para amolecermos e encontrarmos em nós o sentido de humanidade

Estamos todos mal quando deixamos de falar, porque o silêncio cria versões erradas uns dos outros. Ele endurece as margens do coração e faz-nos acreditar que o afastamento é proteção, quando na verdade é apenas medo de tocar na ferida.

Quando magoamos, quebramos o gesto da ternura, não apenas no outro, mas em nós. A ternura exige presença, exige vulnerabilidade, exige que aceitemos que podemos falhar.

Mas há uma verdade desconfortável que raramente admitimos. Quem nos fere também nos move. Não no sentido de glorificar a dor ou romantizar a violência emocional. Não se trata de aceitar o desrespeito, nem de transformar o sofrimento em virtude. Trata-se de reconhecer que o confronto obriga-nos a sair da ilusão. Quando alguém nos atinge, toca em zonas que julgávamos resolvidas, revela inseguranças escondidas, desmonta certezas. A ferida denuncia aquilo que ainda está rígido em nós. E precisamos de percebermos o que nos faz doer ainda.

Precisamos perceber o que ainda nos dói, porque é aí que moram as partes de nós que ainda pedem cuidado. E quase sempre só a fricção e o confronto conseguem revelar essas zonas escondidas. Enquanto tudo é suave, acreditamos que estamos inteiros, resolvidos, maduros. Mas basta um embate, uma palavra, uma atitude, uma ausência da outra pessoa para algo estremecer. É nesse estremecer que a verdade aparece.

A fricção não cria a dor. Ela expõe o que já estava sensível. O confronto não inventa as nossas arestas, apenas as torna visíveis. Aquilo que mais nos desestabiliza no outro costuma tocar num ponto que ainda não cicatrizou em nós. E, se tivermos coragem de olhar para isso sem cair na vitimização nem na culpa cega, percebemos que ali existe matéria de transformação.

Perceba que o ditado é um sofisma. 
"Mais vale só do que mal acompanhado" faz parte da sabedoria popular, mas é um sofisma, uma frase que parece proteger, mas que simplifica em excesso uma realidade complexa. É confortável porque oferece uma solução imediata: diante da dor, corta-se o vínculo. Diante do conflito, escolhe-se o isolamento. Parece lógico, parece prudente. Mas nem sempre é verdadeiro.

A frase parte de uma premissa aparentemente sólida: se a companhia faz mal, a solidão é melhor. O problema está na redução. Nem toda a fricção é afastamento. Nem todo o desconforto é destruição. Há relações que nos desafiam, que nos confrontam, que nos tiram da zona de conforto e isso não significa que sejam "más companhias". Às vezes, são precisamente esses encontros imperfeitos que nos revelam o que ainda precisamos amadurecer.

Quando transformamos o ditado numa regra absoluta, corremos o risco de fugir sempre que algo dói. E fugir pode dar alívio imediato, mas também pode cristalizar padrões. Se toda a vez que alguém toca numa ferida eu concluo que é "má companhia", talvez nunca descubra que aquela ferida já estava aberta antes. 

O sofisma está em apresentar a solidão como virtude automática e a companhia imperfeita como ameaça inevitável.

A vida relacional é mais subtil. Há companhias que nos diminuem, sim. Mas há outras que nos confrontam, e o confronto não é necessariamente um mal. Às vezes é o único caminho para a consciência. O isolamento pode proteger-nos de dores reais, mas também pode impedir-nos de crescer no atrito saudável que revela as nossas arestas.

Ser humano é conviver com diferenças, frustrações, desencontros. Se a resposta for sempre retirar-nos, podemos acabar sozinhos não por sabedoria, mas por defesa. E defesa constante endurece. A verdadeira questão talvez não seja escolher entre estar só ou mal acompanhado, mas discernir.

O ditado tranquiliza, mas a maturidade complica. 

No fundo, aquilo que nos dói aponta o caminho. E só quando temos coragem de atravessar a fricção é que descobrimos quais são as arestas que ainda precisamos amolecer em nós.

Há algo profundamente humano no choque. O conflito revela os limites do nosso ego. Mostra-nos onde ainda somos frágeis, onde reagimos por orgulho, onde confundimos defesa com amor-próprio. E, se tivermos coragem de olhar para dentro em vez de apenas apontar para fora, percebemos que a dor pode ser matéria-prima de transformação.

Não porque o outro tinha razão em ferir, mas porque nós escolhemos não ficar iguais depois disso.

Ser ferido expõe a nossa vulnerabilidade. E a vulnerabilidade, embora desconfortável, é um lugar fértil. É aí que amolecemos.

É aí que descobrimos que humanidade não é ausência de falhas, mas a capacidade de reconhecer o impacto que temos uns nos outros. O confronto, quando atravessado com consciência, pode ensinar-nos a comunicar melhor.

Não há crescimento onde tudo é confortável. A fricção revela caráter. A dor, quando não negada nem idolatrada, pode abrir espaço para maturidade emocional. Podemos sair mais atentos, mais conscientes, menos ingénuos e, paradoxalmente, mais ternos. Porque quem já foi tocado pela própria ferida entende melhor a dor alheia.

Isto não é masoquismo. Não é procurar sofrimento nem aceitar o inaceitável. É apenas reconhecer que a vida não nos molda apenas com afagos. Às vezes, são os abalos que nos obrigam a rever prioridades, a redefinir quem somos, a perceber que precisamos de falar antes que o silêncio nos desfigure.

Talvez o verdadeiro perigo não esteja em sermos feridos, mas em recusarmos aprender com a ferida. Em endurecermos. Em deixarmos de acreditar que, mesmo depois do erro, ainda é possível recuperar o gesto da ternura.

Talvez o que esteja mais certo seja isto:
"Antes viver com falhas do que não viver com ninguém."
"Antes laços tortos do que a perfeição estéril da solidão."

Não se trata de escolher entre solidão ou má companhia, mas de criar um terceiro lugar, onde a relação é possibilidade, e não ameaça.

Então, podemos brincar com a ideia assim:
"Antes um encontro difícil que o vazio do não encontro."
"Antes um nó que um corte."
"Antes um esforço unilateral do que a desistência."
"Antes a ternura do que não amar".

E se quem está connosco é "má companhia", quem define isso? Talvez a má companhia só o seja porque não foi ainda tocada com um gesto novo, porque nos fazemos ausentes.

Talvez a má companhia só o seja porque nunca encontrou em nós a presença que a poderia desmentir.

Isto faz-me lembrar de uma história: Temos uma amiga muito querida. E temos amigos que não querem estar com esta amiga. Ambos cabem no nosso mundo. 

Ao julgarmos os outros, nos retiramos. Porque, ao classificar, nos ausentamos. E ao ausentarmo-nos, deixamos o outro sozinho na própria dor, na própria forma de estar.  

Dar-se a quem parece "errado" exige uma confiança mais funda, confiança de que o vínculo não depende da perfeição, mas da disposição. E este gesto novo de que falamos não precisa ser grande. Pode ser olhar o outro com curiosidade, falar sem esperar retorno, ficar um pouco mais antes de fechar a porta. É o gesto que diz: "estou aqui, mesmo que não saibas como me receber". 

E às vezes somos nós que, no medo de ser mal acompanhados, nos tornamos a má companhia. Porque já chegamos defensivos, já nos colocamos do lado de fora da possibilidade.
 

Quando gostamos de rotular os outros como "errados", "difíceis", tornamo-nos na má companhia.

Isto é tão difícil de aceitar!

Quando apontamos o outro como "difícil", como "errado", nós é que nos tornamos a má companhia. Não porque o outro seja imperfeito, mas porque deixamos de ser espaço para o outro existir. Fechamo-nos na nossa razão, no nosso rótulo, e a relação deixa de ter oxigénio. 

É quase como se quiséssemos ter razão em vez de ter laço. Como se, ao definir o outro, nos protegêssemos. 

Mas o que estamos a fazer é recusar o encontro. E isso é a má companhia.

Eu posso estar presente fisicamente, mas ausente do gesto e aqui lançamos por terra o nosso Experimento Social. Como posso estar com o outro, se estou contra ele?

Estar, mas não abrir a minha porta. 

Como posso estar com o outro, se estou contra ele? Ou melhor, posso parecer que estou. Posso ocupar o mesmo espaço físico, responder com frases, até sorrir. Mas se estou contra ele, se no fundo do meu corpo o rejeito, o julgo, o quero menor, então a minha porta está fechada. 

E aqui em vez de uma relação horizontal com todos, ocupamos um lugar numa relação vertical, onde eu me coloco a cima e essa pessoa coloco em baixo.

A relação vertical disfarçada de convivência. Um teatro subtil, onde o gesto é cordial mas a nossa alma está altiva, onde a palavra soa certa mas o corpo carrega julgamento.

Quando rejeitamos o outro em silêncio, não apenas por proteção, mas por colocá-lo "abaixo" de nós, rompemos o chão comum da relação.

Já não há "nós". Há um "eu" que sabe, que mede, que corrige, e um "outro" que falha, que pesa, que está "menos".

E talvez essa seja a má companhia verdadeira, não é o outro que é difícil, sou eu que deixei de caminhar ao lado. Porque ao subir, deixo o outro só.

Mesmo que sorria, mesmo que diga "estou aqui", a minha presença tornou-se pedestal, e um pedestal não ouve. Só observa. Essa verticalidade cria um abismo. 

Como sabem, somos contra relações verticais. Eu não estou acima, na verdade a minha posição nem se quer é ao nível do outro, aqui eu próprio faço um desnível, coloco-me um pouco mais abaixo, para aprender a servir, para aprender a humidade e descobrir em mim a humanidade.

Não só recusar a superioridade, mas descer conscientemente. Esta temática é demasiadamente complexa. Nós vamos desenvolver tudo isto no Livro 7:
Raciocínio 112 - Aprendendo a descer, Não há pessoas difíceis, há um eu difícil (parte 1)
Raciocínio 113 - Aprendendo a descer: Todos os dias, são para descer (Parte 2)
Raciocínio 114 - Aprendendo a descer: encontros inesperados (parte 3)
Raciocínio 115 - Aprendendo a descer: Fico estupefacto com o que encontrei (parte 4)
Raciocínio 116 - Aprendendo a descer: Bem vindo ao fundo (parte 5)
Raciocínio 117 - Aprendendo a descer: Precisa desencarcerar pessoas presas em si (parte 6)
Raciocínio 118 - Aprendendo a descer: Preciso descarcerar pessoas - continuação (parte 7)
Raciocínio 119 - Aprendendo a descer: os vilões da nossa vida - Tudo é um conflito (parte 8)
Raciocínio 120 - Aprendendo a descer: os vilões da nossa vida - Tudo é um conflito - Ele ou ela está a irritar-me (parte 9)
Raciocínio 121 - Aprendendo a descer: Retire os vilões e as vilãs das suas narrativas (parte 10)
Raciocínio 122 - Aprendendo a descer: Mantenha o equilíbrio, nao faça inimigos. Aprenda a desenvolver a ternura (parte 11)
Raciocínio 123 - Aprendendo a descer: Mantenha o equilíbrio - Não há razão! Há relação (parte 12)
Raciocínio 124 - Aprendendo a descer: Porque a ternura é o caminho

Fazer o desnível, não por culpa, mas por desejo de aprender a servir. Por humildade, sim, mas também por essa fome que temos de humanidade. Porque há algo que só se vê de baixo. Quando noa colocamos abaixo, não para nos anularmos mas para ampliarmos a escuta, abrir espaço ao outro. 

Descer é dizer:
"não preciso vencer esta relação. Quero só compreendê-la."

E ao fazermos isso, abrimos uma coisa linda, o outro já não é um obstáculo, é um espelho dos meus atos constantes de TERNURA, MIMO, AMORJá não estou CONTRA o outro, nem ao lado apenas, estou disponível para o escutar, para sustentar, para aprender.

Esse lugar mais abaixo não é um sacrifício, é um CAMINHO.

Um exercício espiritual de presença. E é aí que nasce o servir não como subserviência, mas como escolha consciente. Uma escolha da minha LUCIDEZ.

Servir é cuidar da possibilidade de vínculo, que se faz com muita ternura. Não nos colocamos abaixo por inferioridade, mas por liberdade. 

Para escutar melhor.
Para receber sem defesas.
Para criar o espaço onde o outro possa ser livre sem eu fazer exigências.


Nao é criar espaço para que o outro desça.

O outro não tem de descer, nem mesmo tem de vir ao meu nível.


O espaço que damos à outra pessoa é para que possa ser livre sem eu fazer exigências.


O caminho que fazemos a descer não se trata de descer para puxar o outro para baixo, nem de convidá-lo a vir ao nosso nível, como se tivessemos qualquer expectativa ou projeto sobre ele.


A nossa descida serve apenas para abrir espaço a nós e ao outro.


Espaço onde o outro não precise de mudar,

de ajustar-se, de provar-se.


Espaço onde ele possa simplesmente ser,

mesmo que seja confuso, bruto, ausente, hesitante.


Mesmo que não se mova.


A nossa descida, essa não exige nada.


Se conseguir retirar a palavra "exigir" da sua relação, apenas da sua comunicação, então irá obter felicidade.


Não é retirar a palavra "exigir" do outro. É tirar apenas do seu vocabulário, da sua forma de estar.


As más relações são estabelecidas pela exigência, regras, controlo sobre o outro.


No nosso movimento de Motivação e Auto-Ajuda, não esperamos que o outro corresponda.


Não propomos uma pedagogia disfarçada.

É puro gesto de liberdade oferecida.


Uma clareira interior que não prende ninguém.


Estar mais abaixo é só a forma como escolhemos renunciar ao poder de moldar o outro com o nosso olhar.


É uma prática de não interferência, mas também de presença radical.


Por isso nós estamos abertos, disponíveis.


E é aí que a humildade se torna viva, não como auto-anulação, mas como arte de não tomar o outro para eu subjugar, controlar, medir, rotular.


E a beleza, é que quando fazemos isso,

quando deixamos de exigir qualquer movimento do outro é aí, paradoxalmente, que começa a verdadeira relação.


Não uma dança em sincronia, mas uma coexistência em verdade onde o outro é de uma maneira e eu sou de outra.


Não uma dança coreografada, não uma fusão, não esse ideal de "encaixe perfeito" que tantas vezes sufoca.


Falámos já antes sobre isto:

#RefAutoAjudaMPM173 - Raciocínio 65/200 - Dance nas suas relações sem impor coreografia


O que pretendemos com os outros nas relações que estabelecemos é uma coexistência em verdade, onde cada um tem o direito de ser o que é, com as suas margens, os seus ritmos, os seus ruídos.


Uma convivência onde não há a tentação de afinar o outro, nem a ilusão de que só há paz quando há espelho.


Porque a verdade é isto: o outro é de uma maneira, eu sou de outra.


E nada está errado nisso.


Não estamos juntos para nos uniformizarmos, e também não estamos juntos para nos suportarmos.


"Suportar" carrega um peso como se o outro fosse fardo, como se a diferença fosse algo a aguentar.


E isso trai a delicadeza daquilo que queremos nomear.


Porque não se trata de suportar mas de estar com ele sem necessidade de ajustar, corrigir, transformar.


Nós acolhemos sem tentar reescrever.


Não é suportar é sustentar um espaço comum, é deixar viver.


Estamos juntos para que, na diferença, haja verdade. Verdade não como confronto, mas como respiração honesta.


Cada um com o seu corpo, o seu compasso, sem precisar de traduzir-se para caber no outro.


Uma presença que não força convergência

uma espécie de ternura assimétrica daí a unilateralidade da relação.


"Tu não precisas de mudar para que eu fique".


Já antes explicámos que não nos relacionamos com outras pessoas para as mudarmos. Só há uma pessoa a mudar nesta dança: eu mesmo!


Coexistir é não interromper o outro com a nossa ideia de como ele devia ser.


É aceitar a divergência, com respeito,

pode ser até mais fértil do que a sintonia.


Essa coexistência é uma espécie de dança, há escuta.


Eu sou de um modo.

O outro é de outro.


E isso não impede a ligação, só a transforma.


Talvez esta seja a forma mais profunda de amar, não desejar que o outro venha, mude, se transforme, mas permanecer ao lado dele, como quem diz:

"não preciso que sejas como eu para que te acolha."


A nossa presença torna-se chão. E quem pisa esse chão, sente que pode existir ali sem se justificar.


E podemos então habitar a relação com ternura lúcida.


Se nos colocamos acima dos outros e os rejeitamos, o outro sente-se observado, diminuído, corrigido.


Não amamos bem a partir de cima.

Ama-se bem ao lado e ama-se bem melhor se estivermos abaixo.


A relação horizontal é um risco. Porque exige ver o outro como par, mesmo quando ele se comporta de forma que nos fere.


A relação horizontal não se posiciona em superioridade moral.


Fica. Escuta. Não despreza.


Talvez o nosso desafio mais fundo seja esse, descer do degrau onde nos colocámos, não porque o outro mereça, mas porque nós queremos ser companhia verdadeira, com todos.


Os encontros reais acontecem na horizontalidade, onde tratamos com carinho e dignidade a senhora da limpeza.


A porta fechada sente-se. O outro sente.

E se o fazemos, estamos bem longe deste experimento social.


O olhar que não acolhe, o gesto que se retrai.

Qualquer forma de defesa é já ausência.

Qualquer barreira interior é já uma não-presença.


Abrir a porta não é tornar-se vulnerável de forma tola. É tornar-se disponível. Para escutar. Para ser tocado. Para mudar de ideia. Ou só para não fugir.


Na verdade ninguém é má companhia quando é olhado com esperança.


Por isso desculpem-me mais prefiro estar mal acompanhado do que só.


É no mal acompanhado que vejo as minhas falhas como ser humano que ama, que abre a porta, que deixa entrar.


Esta escolha, tão contracorrente e tão cheia de lucidez crua coloca a solidão no lugar dela que é o vazio, que não é paz, mas suspensão.


Um lugar onde nada dói, mas também nada vibra.


E nós recusamos isso. Preferimos o atrito da companhia imperfeita ao silêncio estéril da "perfeição" solitária.


Preferimos o desconforto para crescermos emocionalmente.


Porque só no encontro, mesmo falhado, mesmo torto, é que nos encontramos, damos de cara connosco mesmos.


Porque amar mal, às vezes, é ainda amar. E esse movimento, de abrir a porta aos outros é talvez a forma mais corajosa de resistir ao vazio.


Mais vale "mal acompanhado" do que só.



Abraço fraterno
Nuno Miguel R. S. Gomes
(Sociólogo e Filósofo)

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