
Raciocínio 75/200
As minhas ações estão a construir uma melhor pessoa em mim?
Motivação para viver, a busca pela felicidade através de um método de esforço cognitivo. O método que usamos é efetuado por etapas graduais. Será o encadeamento destas etapas que nos levará a entender este processo complexo constituído por 200 raciocínios.
Começaremos vários exercícios de motivação. Poderá comentá-los, ou enviar mensagem em privado para o nosso email: Auto.ajuda.mundo@gmail.com
Iremos gradualmente e por raciocínios adquirir conhecimento motivacional. Sugerimos que comece pela 1° raciocínio para poder perceber o encadeamento dos raciocínios que iremos estabelecer, e faça a leitura ao seu ritmo. Basta em cima selecionar "Raciocínios" e 1/200, e depois por 2/200 e assim por diante.
Vamos fazer aqui um resumo de todos os raciocínios que já abordámos:
1/200 - O início de uma caminhada
2/200 - O problema de atribuir significado a pensamentos que não interessam
3/200 - Não permita que o passado exerça poder sobre si
4/200 - Transcenda as limitações do passado
5/200 - A mente e o poder incrível da imaginação
6/200 - Os rituais do imaginário
7/200 - Preferir a "felicidade" à "depressão"
8/200 - Vamos criar um raciocínio produtivo
9/200 - O problema da crença do poder da atração
10/200 - Escolher a felicidade e recusar a infelicidade (Parte 1)
11/200 - A explicação do nosso "segredo"!
12/200 - O problema da Ataraxia
13/200 - A emoção da tristeza
14/200 - Nós somos responsáveis pela maneira como nos sentimos
15/200 - A lei da fé
16/200 - O que fazer com a inveja
17/200 - Quando está tudo escuro e a luz que brilha está bem longe
18/200 - A Paz Interior o motor da vida (1/3): introdução
19/200 - A Paz Interior o motor da vida (2/3): o poder da recordação
20/200 - A Paz Interior o motor da vida (3/3): A regra do silêncio deixando de ter razão
21/200 - Retirar de nós a auto-piedade, auto-rejeição, auto-depreciação, auto-anulação (parte 1)
22/200 - Auto-acusação e Auto-piedade (parte 2)
23/200 - Esclarecimento sobre os "Autos"
24/200 - Tomar consciência dos pensamentos que temos
25/200 - Preferir a FELICIDADE em vez da infelicidade (Parte 2)
26/200 - Não tenha medo de errar
27/200 - Fortaleça a sua estabilidade interior
28/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 1): Introdução
29/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 2): Projetar potência criadora numa dedicação integral com todos, da mesma forma e continuamente
30/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 3): ofereça presença
31/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 4): "Acolhimento" - 1ª Dimensão
32/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 5): "Acolhimento" (continuação)
33/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 6): "Apoio" - 2ª dimensão
34/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 7): "Apoio" - 2ª dimensão (continuação)
35/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 8): "Projeção" - 3ª dimensão
36/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 9): "Valorizar" - 4ª dimensão
37/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 10): "Entrar em sintonia" - 5ª dimensão
38/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 11): "ilumine o outro" - 6ª dimensão
39/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 12): "Como definir o Campo de Ação e o Poder de saber o nome" - 7ª dimensão
40/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 13): "Altere o seu olhar" - 8ª dimensão
41/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 14): "dar espaço ao outro" - 9ª dimensão
42/200 - Como ter potência criadora - 1 estratégia: IVA (imposto de valor acrescentado)
43/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (parte 1/4)
44/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): Um segredo que revelamos - A criação das redes de pequenas maledicências no trabalho (parte 2/4)
45/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): A dificuldade de tornar um assunto em não assunto (3/4)
46/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): na prática o que deixar de fazer (parte 4/4)
47/200 - Como ter potência criadora - 3 estratégia: Não chame os outros à atenção
48/200 - Como ter potência criadora - 4 estratégia: Cale-se por favor!
49/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégia: A história de Tolstói (uma reflexão)
50/200 - Como ter potência criadora: Finalmente - Os miminhos
51/200 - Relações horizontais e não verticais: a unilateralidade - parte 1
52/200 - Relações horizontais e não verticais: a autoresponsabilidade - parte 2
53/200 - O silêncio estúpido
54/200 - Eu adapto-me ou o outro tem de se adaptar a mim?
55/200 - Não compre guerras. O problema da conspiração
56/200 - A teoria dos Habitats: não floresça em microclimas
57/200 - O desconforto: o nosso campo de ação (parte 1)
58/200 - O desconforto: os contra-vontades (parte 2)
59/200 - Um jogo de energias - escolher ou acolher?
60/200 - Como atrair tudo até si
61/200 - Porque não vendemos nada e o nosso experimento social é gratuito - Parte 1
62/200 - Porque não vendemos nada e o nosso experimento social é gratuito - Parte 2 - O busílis
63/200 - Ação ou reação - A peça teatral, dão-nos um guião e escolhemos outro papel
64/200 - Um amor raro que faz relações durarem anos - Não precisamos que nos peçam desculpa
65/200 - Dance nas suas relações sem impor coreografia
66/200 - Não chame ninguém a atenção (parte 2): uma revolução nos relacionamentos - espalhe flores
67/200 - Quando os outros endurecem o semblante: a ponte caída
68/200 - O mimo como forma de resistência contra o endurecimento do mundo: use a cor que tiver
69/200 - Um experimento social de acolhimento: não escolhemos mas acolhemos
70/200 - A solidão e o mundo das conexões: a porta enferrujada
71/200 - Mais vale só do que mal acompanhado: e se este ditado estiver incorreto?
72/200 - Solidão, Solitude e Solícito
73/200 - Os déspotas do nosso interior
74/200 - Conspiração: As vidas diminuídas (Parte 2)
Hoje iremos analisar o nosso Raciocínio 75/200 - As minhas ações estão a construir uma melhor pessoa em mim?
As minhas ações estão a construir uma melhor pessoa em mim?(1) Esta é a grande questão que deve primar a nossa existência(2). Esta pergunta é daquelas que não se responde, vive-se(3).
As nossas ações são como dedos invisíveis a moldar barro(4). Mas o barro somos nós(5). Nós somos também os dedos(6). E também somos o GESTO que decide se vamos alisar ou quebrar.(7)
A questão não é se estamos a construir "uma melhor pessoa"(8), como se houvesse um modelo a alcançar(9). É se estamos a escutar quem vamos sendo neste PROCESSO(10). E neste PROCESSO que temos vindo a empreender connosco mesmos, esta questão é fundamental.(11)
Precisamos dar a nós mesmos espaço, ternura, exigência, lume.(12)
- "esta ação aumenta a minha LUCIDEZ?"(13)
- "esta escolha expande a minha TERNURA?"(14)
- "este GESTO gera um pouco mais de presença no mundo?"(15)
Posso protocolar o meu agir(16) para ser o mais imparcial com todas as pessoas?(17) Isto aplica-se nos nossos trabalhos, nas atividades laborais do nosso dia a dia(18). Por vezes fazemos tarefas que envolvem outras pessoas.(19)
Como as tratamos?(20)
Posso então protocolar o meu agir para ser o mais imparcial com todas as pessoas?(21)
Podemos sim(22). E essa é uma ideia belíssima, quase revolucionária(23), porque nasce de uma intenção rara(24). Tratar todos com imparcialidade, com justiça interior.(25)
A não neutralidade(26)
Mas logo aparece a primeira tensão(27). Quem age, age sempre a partir de um lugar(28). E esse lugar é o nosso corpo, a nossa história(29). E aqui não seremos neutros(30), mas autores de uma história que se faz com os nossos atos.(31)
Estamos bem longe de sermos neutros(32). O nosso modelo de vida é fazer história na vida das outras pessoas.(33)
Protocolar o meu agir será criar um conjunto de princípios(34), talvez até uma espécie de ética prática(35), que funcione como bússola quando as emoções ou os vínculos tentam puxar o gesto para um lado só.(36)
Mas o protocolo, para ser vivo, não pode ser cego(37). Porque imparcial não significa indiferente.(38)
Então, talvez possa sim desenhar um modo de agir(39) com:
- Escuta igual para todos, mesmo quando o coração bate mais por uns do que por outros;(40)
- Coerência nos critérios, sabendo que a justiça se treina nas pequenas escolhas;(41)
- Espaço para ajustar o protocolo(42), porque imparcialidade não é rigidez, é clareza, e é também ajuste(43). Por vezes posso agir de uma maneira(44) e outras vezes posso afinar o meu agir para me tornar mais imparcial.(45)
A introdução da justeza no meu agir(46)
E aqui a palavra que mais se adequa ao nosso GESTO é a justeza.(47)
Não se trata de direitos e compensações(48). Trata-se de estar certo no GESTO, como quem afina um instrumento antes de tocar.(49)
A justeza é mais próxima da música do que da lei(50). E nós aqui apenas queremos tocar uma música de harmonia entre nós e os outros(51). Este sim é o fundo do nosso Experimento Social.(52)
Instrumento e tear(53)
Quando falamos não de justiça mas de justeza(54), estamos a dizer que também nós somos matéria desse afinamento(55). Somos o afinador, mas também somos o instrumento que precisa ficar afinado(56). Mas não somos o centro(57). De nós brotará música(58). Somos o fio dentro do tecido(68), e somos também o tear.(59)
A ideia de que a justeza está mais próxima da música do que da lei(60) aponta para uma diferença fundamental entre dois modos de pensar a ordem humana.(61)
A lei tende a fixar, a estabilizar, a definir previamente o que é correto e o que é incorreto(62). E muitas pessoas funcionam com este modo de ser completamente inflexível entre o que é certo e errado.(64). Se afirmo que gosto de determinadas pessoas e não gosto de outras(65), se aceito determinados comportamentos e não aceito outros.(66)
A música, pelo contrário, vive do ajuste contínuo(67), da escuta, da sensibilidade ao tempo, ao ritmo e à presença dos outros.(68)
Quando digo que a justeza se aproxima da música(69), afirmo que viver justamente não é apenas obedecer a regras(70), mas participar num PROCESSO constante de afinação nas relações(71). E atenção: em TODAS as relações(72). E atenção: com TODAS as pessoas(73)
Tal como numa orquestra, onde nenhum instrumento produz harmonia sozinho(74), a justeza nasce do encontro entre vozes e instrumentos diferentes que procuram ajustar-se uns aos outros.(75)
Quando se fala em tocar uma música de harmonia entre nós e os outros(76), a imagem reforça a ideia de que a convivência não é uma estrutura fixa, mas uma prática viva.(77)
Harmonia não significa que todos sejam iguais(78) ou que todas as diferenças desapareçam(79). Pelo contrário, a harmonia surge precisamente porque existem diferenças que se articulam(80). Cada pessoa traz o seu tom, o seu tempo e a sua forma de estar(81). O desafio não é eliminar essas diferenças(82), mas encontrar entre elas uma forma de coexistência(83) que produza consonância em vez de ruído.(84)
Neste sentido, o nosso Experimento Social não é a tentativa de construir um sistema perfeito(85), mas de explorar continuamente maneiras mais sensíveis(86) e mais conscientes de viver em conjunto(87). E isso é realizado com cada um nas suas relações(88), sem fórmulas mágicas(89), sem regras já pré-estabelecidas(90), mas com afinamento, o meu afinamento(91). A forma como eu me escuto(92), a minha sensibilidade a escutar o OUTRO.(93)
A distinção entre justiça e justeza reforça ainda mais esta perspetiva(94).
Justiça remete frequentemente para instituições, tribunais, normas e procedimentos que procuram garantir equidade(94).
Justeza, neste contexto, aponta para algo mais subtil e mais humano(95). Uma capacidade de perceber o momento certo, o gesto adequado, o equilíbrio possível numa determinada situação.(96)
Não se trata de uma fórmula que se aplica mecanicamente(97), mas de uma sensibilidade que se desenvolve na relação com os outros e com o mundo.(98)
Por isso afirmo que também nós somos matéria desse afinamento(99). Não estamos fora do PROCESSO que procuramos ajustar(100). Nós somos o próprio PROCESSO(101). Não somos observadores neutros(102) nem juízes [dos outros](103), exteriores à música que se tenta tocar(104). Somos parte dela.(105)
Aquilo que fazemos, aquilo que dizemos e a forma como nos posicionamos também precisa de ser afinado(106). A justeza não se dirige apenas ao comportamento dos outros(107), envolve igualmente a minha transformação(108), eu participo na construção da relação.(109)
Daí a afirmação de que sou também o afinador(110), mas também o instrumento que precisa ficar afinado(111). Há aqui uma dupla condição que define a experiência humana(112). Por um lado, temos a capacidade de intervir(113), de procurar harmonia nas relações(114). Por outro, também carregamos tensões(115), desajustes e limites que exigem cuidado e atenção(116). Afinar o mundo implica simultaneamente aceitar que também precisamos de ser afinados por ele(117). A relação transforma-nos tanto quanto nós transformamos a relação.(118)
É pois no atrito com os OUTROS(119), que eu faço os meus próprios ajustes(120), e onde eu afino a qualidade das minhas relações(121). Algumas relações? TODAS as relações.(122)
Quando digo que não sou o centro(123), introduzo um princípio de descentração(124) que impede que a música da convivência seja reduzida a um único ponto de vista(125). Nenhuma pessoa, nenhuma vontade individual, nenhuma perspetiva isolada pode ocupar o lugar absoluto de referência(126). A harmonia só existe quando cada parte reconhece que partilha o espaço com outras partes igualmente necessárias(127). Não somos o centro da música, mas somos participantes nela.(128)
Ainda assim, de nós brotará música(129). Isto significa que, embora não sejamos o centro, somos fontes de criação dentro do tecido das relações(130). A música não surge de fora nem é imposta por uma autoridade exterior(131). Ela emerge do encontro entre as pessoas(132), da forma como eu escuto, me ajusto e me transformo(133). A beleza possível da convivência nasce precisamente deste PROCESSO, mesmo sendo unilateral. (134)
A imagem do fio dentro do tecido aprofunda esta compreensão(135). Cada pessoa é um fio entre muitos outros(136). Sozinho, o fio tem pouca forma(137). É na trama com os outros que surge o tecido(138). As identidades, os gestos e os caminhos individuais ganham sentido quando entram em relação com os de outras pessoas.(139)
Ao mesmo tempo, ao dizer que também somos o tear(140), reconheço que não somos apenas elementos passivos da trama(141). Participamos na própria construção do tecido(142). As nossas escolhas, práticas e formas de relação ajudam a configurar a estrutura onde todos nos entrelaçamos.(143)
Por isso é necessário que afirme que somos tudo isto e, ainda assim, não somos o centro(144). Somos fios e somos parte do tear(145), participamos na construção(146) e somos também construídos por ela(147).
O que somos não se estabelece isoladamente(148), mas no Movimento constante da relação(149). Só na presença dos outros é que aquilo que somos ganha forma e realidade(150). A existência humana revela-se, assim, como um PROCESSO profundamente relacional(151), onde a identidade, a harmonia e a justeza surgem do entrelaçamento contínuo entre cada um e todos os outros.(152)
Neste GESTO de querer protocolar o meu agir(153) para sermos imparciais(154), o que buscamos é uma tonalidade comum(155), como se quiséssemos que todos os que nos rodeiam pudessem respirar o mesmo ar, sentir o mesmo cuidado, tocar o mesmo campo de presença(156). E mesmo que outros tenham um semblante altivo para connosco(157), o nosso GESTO unilateral(158) será sempre esta música que tocamos para TODOS os OUTROS.(159)
O protocolo então não é régua, é imparcialidade não como ausência de sentimento, mas como igual acesso ao nosso cuidado lúcido.(160)
Eu gostaria que vivesse as suas relações sem a instituição das regras(161). Que beleza quando em casa vivemos juntos a TERNURA, sem a existência de regras sufocantes.(162)
Quando falo do gesto de querer protocolar o meu próprio agir para que exista imparcialidade(163), não se trata de criar regras de comportamento(164), mas de estabelecer uma orientação interior que antecede cada encontro.(165)
Protocolar, neste sentido, não significa mecanizar a ação(166), mas torná-la consciente, repetível e reconhecível como um compromisso(167). É como definir uma forma de presença que não depende do humor do momento nem da reação dos outros(168). Este GESTO transforma-se numa espécie de disciplina do meu cuidado com os outros(169), uma decisão de sustentar uma determinada qualidade de relação independentemente das circunstâncias que se apresentem.(170)
Se faço da TERNURA um protocolo, então onde está a regra?(171)
Buscar uma tonalidade comum aponta para a tentativa de criar um campo onde as diferenças possam coexistir sem se transformarem em ruptura(172). A tonalidade, na música, é aquilo que permite que notas distintas pertençam à mesma paisagem sonora.(173)
Não elimina a diversidade, mas oferece um horizonte onde ela pode encontrar sentido(174). Assim, quando se procura essa tonalidade comum nas relações humanas, o que está em causa é a construção de um ambiente onde cada pessoa possa existir(175) sem sentir que precisa de disputar constantemente o espaço de existência com os outros(176). Trata-se de criar uma atmosfera ética(177) onde a presença de cada um não ameaça a sua presença.(178)
Trabalhei com uma colega que tinha um temperamento que muitos considerariam "difícil"(179). Desde o início procurei não entrar numa lógica de confronto ou de imposição. A minha primeira intenção foi horizontalizar a relação(180), tratando-a sempre com a maior dignidade possível. Para que isso acontecesse, tive de pensar e criar várias pequenas estratégias no modo como nos relacionávamos no dia a dia(181). Um exemplo simples era a música que ouvíamos enquanto trabalhávamos. Ela gostava muito de música mais metálica, intensa. Eu poderia ter proposto um acordo aparentemente justo: num dia ouviríamos o tipo de música que ela preferia e noutro dia ouviríamos algo mais calmo, que estivesse mais próximo do meu gosto. Seria uma solução legítima(182) e equilibrada em termos formais. No entanto, percebi que insistir nisso poderia introduzir uma tensão desnecessária e acabar por fragilizar a relação(183). Em vez disso, preferi deixar que fosse ela a escolher livremente a música que queria ouvir. Para mim, naquele contexto, preservar a qualidade da relação era mais importante do que afirmar uma simetria perfeita nas preferências [isto é um SEGREDO](184). Esse pequeno GESTO ajudou a criar um ambiente mais leve e a tornar a convivência mais fluida.(185)
Se faço da TERNURA um protocolo, então onde está a regra?(186)
A imagem de todos poderem respirar o mesmo ar reforça esta ideia de campo partilhado(187). O ar é algo invisível, mas absolutamente essencial(188). Sustenta a vida sem se impor como objeto(189). Do mesmo modo, o cuidado e a atenção podem tornar-se uma espécie de clima relacional que envolve TODOS(190) sem precisar ser constantemente afirmado ou demonstrado.(191)
Quando um ambiente humano é atravessado por uma qualidade de presença(192), as interações deixam de ser apenas trocas pontuais(193) e passam a acontecer dentro de um espaço da minha construção unilateral(194). Respirar o mesmo ar significa, portanto, partilhar uma condição de dignidade e do meu reconhecimento unilateral.(195)
Estou constantemente a colocar intencionalmente a palavra unilateral para afirmar que é o meu GESTO(196), é a minha ação sobre o ambiente relacional(197), sobre as pessoas à minha volta(198), independentemente se essas pessoas participam ou não(199). Sou eu que crio o ambiente para que a relação possa existir(200). Não procuro a reciprocidade(201). Não há nenhuma exigência da minha parte ao outro(202), a exigência que eu faço é apenas a mim mesmo(203) e a possível reciprocidade(204) apenas será um resultado da minha unilateralidade.(205)
Sentir o mesmo cuidado não significa que todos experimentem exatamente as mesmas emoções(206), mas que exista uma base minha protocolada(207). O meu agir é protocolado(208). E que melhor protocolo este - a TERNURA, tratar o outro sempre com muito respeito, consideração.(209)
É a perceção de que, independentemente das diferenças de posição, opinião ou temperamento, existe um cuidado que se estendo a TODOS(210). Este cuidado funciona como um chão invisível(211) que sustenta TODAS as minhas relações(212) e impede que o conflito, quando surge, destrua completamente o vínculo entre as pessoas(213). Impedir que a tensão se transforme em desumanização.(214)
A presença não é apenas o facto físico de estar ali(215), mas a qualidade com que habito o espaço comum com os outros(216). Um campo de presença significa que existe uma atenção(217) mesmo que não seja recíproca(218) que torna os encontros mais densos, mais conscientes(219). Nesse campo, cada GESTO, cada palavra e até cada silêncio passam a fazer parte de uma textura relacional mais ampla(220). O que se busca, portanto, não é apenas um comportamento correto, mas uma forma de estar que influencia o próprio ambiente humano onde se vive.(221)
A referência ao semblante altivo dos outros introduz uma realidade inevitável(222). Nem todos responderão ao meu GESTO com a mesma abertura(223). Haverá sempre quem se aproxime com distância, com superioridade ou com indiferença(224). A altivez do outro [é do outro](225) pode criar uma assimetria na relação(226). Contudo, a resposta a essa assimetria não deve ser o abandono do meu GESTO(227). Pelo contrário(228), é precisamente nessas situações que a decisão de manter a minha tonalidade escolhida revela a minha profundidade(229). E claro, aqui introduzo a maturidade emocional.(230)
O meu GESTO UNILATERAL torna-se então uma afirmação ética(231) que não depende da aprovação ou da validação alheia(232). É uma estratégia(233), a forma de fidelidade a um modo de habitar o mundo(234). Ao manter este GESTO mesmo quando o outro não o reconhece(235), afirma-se que a qualidade da própria ação não está subordinada ao comportamento alheio(236). Esta unilateralidade não significa isolamento(237), mas consistência e consciência dos meus muitos atos(238). É a decisão de não permitir que a dureza ou a distância dos outros determine a tonalidade da minha própria presença.(239)
Quando digo que este GESTO é a música que se toca para TODOS os OUTROS(240), reforço a ideia de que cada ação minha participa na criação de um ambiente mais amplo(241) do que a relação imediata em que ocorre(242). Uma música não se dirige apenas a um ouvinte específico(243). Ela espalha-se pelo espaço e pode ser escutada por quem quer que esteja presente(244). Do mesmo modo, cada GESTO do meu cuidado, de atenção ou de imparcialidade contribui para a formação de um campo relacional que ultrapassa qualquer fronteira.(245)
Assim, o GESTO torna-se simultaneamente individual e coletivo.(246)
Individual porque nasce de uma decisão pessoal de agir de determinada forma.(247)
Coletivo porque o seu efeito se propaga e influencia o tecido das relações que o rodeiam(248). Ao persistir nesta música dirigida a TODOS os OUTROS(249), afirmo a possibilidade de que a harmonia não precisa começar com uma maioria ou com um consenso prévio(250). Ela pode existir sempre como meu GESTO que decide manter a sua tonalidade mesmo quando o mundo à volta ainda não está afinado com ela.(251)
E a justeza… a justeza é esta arte de não ser mais nem menos do que o necessário(252). É o gesto que se reconhece quando somos presença na vida dos outros.(253)
Quando cada pessoa, por mais diferente que seja, recebe de nós um reflexo do mesmo sol.(254)
Não quero julgar ninguém(255), quero apenas ser certo com TODOS(256). E essa é talvez das intenções mais raras e preciosas que se pode ter(257). E aqui será a TERNURA e o MIMO, o adereço das minhas ações.(258)
Adereço aqui não como ornamento supérfluo(259), mas como GESTO de aprofundamento na vida do outro(260). Como um selo, um perfume, uma brisa que antecede o toque.(261)
De que serve uma imparcialidade sem ternura(262)? Mas com MIMO, tudo muda.(263)
Raciocínio 68 - O mimo como forma de resistência contra o endurecimento do mundo: use a cor que tiver(264)
Porque o MIMO não distingue por merecimento(265), nem mede o afeto por critérios(266). Ele transborda, como um GESTO gratuito, silencioso, às vezes quase impercetível(267). E aí, mesmo a imparcialidade ganha corpo, ganha pele.(268)
Se faço da TERNURA um protocolo, então onde está a regra?(269)
Quando se pergunta onde está a regra se a ternura se torna um protocolo(270), a questão desloca o sentido habitual daquilo que entendemos por regra(271). Normalmente pensamos a regra como algo exterior a nós(272), uma formulação clara que define comportamentos e estabelece limites precisos.(273)
A TERNURA, pelo contrário, pertence ao domínio do espontâneo(274), do sensível, do que nasce da inclinação interior(275). Transformá-la em protocolo parece, à primeira vista, uma contradição(276). Contudo, o que aqui se propõe não é transformar a ternura numa norma rígida(277), mas reconhecê-la como uma orientação fundamental do agir.(278)
Se a TERNURA é assumida como protocolo(279), a regra deixa de ser uma lista de instruções(280) e passa a ser uma espécie de princípio gerador.(281)
Não diz exatamente o que fazer em cada situação(282), mas define a tonalidade a partir da qual cada GESTO será decidido.(283)
A regra não está então no conteúdo específico de cada ação(284), mas no critério silencioso que orienta a escolha entre várias possibilidades.(285)
Sempre que surge uma decisão, a pergunta implícita passa a ser: qual é a forma de agir que preserva a dignidade do outro(286), que não reduz(287), que não endurece desnecessariamente a relação?(288)
Nesse sentido, a regra está na fidelidade a esse princípio de cuidado(289). A ternura protocolada não significa sentimentalismo nem fragilidade(290). Significa uma disciplina da atenção(291). Implica escolher deliberadamente um modo de presença que reconhece o outro como alguém que merece ser tratado com delicadeza existencial(292), mesmo quando a situação permitiria responder com indiferença ou dureza.(293)
A regra aparece precisamente nesse compromisso de manter uma determinada qualidade de relação(294), independentemente das variações de humor(295), das pressões externas ou das atitudes do outro(296). Assim, a regra deixa de ser um mecanismo de controle(297) e torna-se uma forma de coerência interior(298). Da minha coerência interior.(299)
Ela funciona como um eixo que estabiliza o agir sem o tornar mecânico(300). Cada situação continua a exigir discernimento(301), adaptação e sensibilidade(302), mas existe um fundo constante que impede que a ação se perca na arbitrariedade.(303)
A TERNURA como protocolo não elimina a liberdade(304), pelo contrário, orienta a liberdade para um horizonte de humanidade(305). Nesse contexto, a regra não se apresenta como algo visível ou declarativo(306). Ela manifesta-se no modo como eu mesmo ocupo o espaço comum com os outros(307). Está presente na forma do meu falar, na maneira que eu escuto, no cuidado com pequenos gestos que muitas vezes passam despercebidos.(308)
A regra torna-se quase atmosférica(309). Não é algo que se enuncia a cada momento, mas algo que se respira na forma como a relação é habitada.(310)
Ao protocolar a TERNURA, aquilo que se estabelece é uma decisão ética de base(311). Nunca tratar o outro como se a sua presença fosse irrelevante ou descartável.(312)
A regra, então, não é uma fórmula, mas um compromisso constante com a preservação da dignidade relacional(313). É uma regra que não se impõe pela rigidez da norma(314), mas pela constância de um GESTO que se repete até se tornar parte da própria maneira de existir com os outros.(315)
Ao fazermos da TERNURA e do MIMO os nossos adereços, estamos a dizer:(316)
"Não quero apenas agir com justeza. Quero que cada pessoa, ao cruzar-se com o meu GESTO, se sinta vista, tocada por algo de bom, mesmo que nunca me volte a ver."(317)
Vou ter de repetir esta frase. Gostaria que fosse o mote da sua existência, do seu ser no mundo(318). Uma forma como vamos atingir os OUTROS(319), TODOS os OUTROS:(320)
"Não quero apenas agir com justeza. Quero que cada pessoa, ao cruzar-se com o meu GESTO, se sinta vista, tocada por algo de bom, mesmo que nunca me volte a ver."(321)
A nossa presença é fundamental na vida de cada pessoa(322). E é através de cada pessoa que verdadeiramente nos transformamos(323). São as pessoas chamadas de "tóxicas", "difíceis", "erradas", "antipáticas", que nos ajudarão a desenvolvermos de uma forma mais impactante a nossa Maturidade Emocional(324). Não as descartamos como a maioria da sociedade que se afasta daquilo que não compreende(325). Essas pessoas são o nosso laboratório para o nosso próprio desenvolvimento.(326)
No meu local de trabalho por cada pessoa que passo cumprimento pelo seu nome:(327)
Raciocínio 39 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 12): "Como definir o Campo de Ação e o Poder de saber o nome" - 7ª dimensão
Por vezes paro, cumprimento com um gesto, por vezes abraço, algumas senhoras dou um beijinho, um afeto. Outras pessoas vão ter comigo ao meu escritório, e levanto-me da minha secretária para os cumprimentar.(328)
Com muito respeito, muita sensibilidade tento tocar as suas vidas com um MIMO.(329)
Ás vezes faço pequenas brincadeiras, jogos que promovem prémios e tantas coisas que invento para horizontalizar relações(330) e para tornar o mundo destas pessoas mais fácil de se viver.(331)
O MIMO não exige aplauso. Não quer retribuição(332). Ele só quer passar e deixar um pouco de calor no caminho.(333)
Então sim: Protocolar o nosso agir.(334)
Ser imparcial mas com carinho, com afeto.(335)
Mas adornar cada GESTO com TERNURA.(336)
Deixar que o MIMO seja o nosso modo mais discreto de dizer: "mereces beleza, e vou tratar-te com dignidade".(337)
Uma colega veio pedir-me ajuda para lhe imprimir uns documentos. Aproveitei o momento para lhe ACRESCENTAR algo à sua vida(338). Ela respondeu: "quando venho ter contigo há sempre algo que acrescentas em mim". Adorei a palavra "acrescentar", que diz tanto.(339)
Costumo fazer compras em duas mercearias ambas propriedade de indianos(340). Uma das mercearias trabalha um casal já com alguma idade e o filho. Ambos são donos da mercearia e do café em frente. Cada vez que faço compras já sei o nome de ambos e com muito respeito trato o casal e o filho. Manifesto sempre uma TERUNRA irradiante pelas suas vidas(340). O Sr. Vinóte e a Sra. Sárose. Fico muito feliz cada vez que vou lá comprar mercearias. Eles notam o CARINHO que lhes transmito(341), porque o semblante deles quando me veem também é de TERNURA(342). Temos tanto a aprender uns com os outros.(343)
No Livro 7 iremos desenvolver a TERNURA quando formos verdadeiramente "aprender a descer", tema do livro(344). Tudo o que tenho falado até aqui é um pronúncio daquilo que verdadeiramente iremos tratar:(345)
Raciocínio 122 - Aprendendo a descer: Mantenha o equilíbrio, não faça inimigos. Aprenda a desenvolver a ternura (parte 11)
Raciocínio 124 - Aprendendo a descer: Porque a ternura é o caminho
Vi recentemente um documentário sobre a Índia que me deixou fascinado pelos indianos.(346)
Uma outra mercearia cumprimento sempre os três senhores que ali trabalham. Por vezes eles encontram-me e cumprimentam-me.(347)
Há aqui um mistério, nas relações, um SEGREDO que me acompanha(348). Este SEGREDO é o AMOR, a força mais bela(349). Uma força sem nacionalidade, uma força humana(350). E brevemente iremos no Livro 5 abordar os "Micro rituais de aproximação", um estudo SECRETO.(351)
Esta é a nossa marca(352). A marca de um Movimento que não se faz em ideias(353), mas em atos(354), em milhares de atos todos os dias(355). Onde a nossa presença dá ânimo, dá alento, encoraja outros.(356)
E que belo Movimento este que se faz com cada um de nós(357). Entramos nesta dança e ao entrarmos afinamos o nosso interior para sermos mais humanizados.(358)
Há algo de mágico nisto(359). Não nos tornamos mais humanos sozinhos(360). Por isso as filosofias que colocam o ser humano numa espécie de espiritualidade afastam-se daquilo que é o mais maravilhoso(361). O encontro de mim mesmo na relação com os outros.(362)
O maravilhamento da vida não está em subir para fora do mundo(363), está em descer mais fundo no encontro.(364)
Há filosofias, sim, que propõem uma espiritualidade de afastamento, a elevação, a busca do transcendente, o isolamento, para encontrar uma suposta pureza.(365)
Mas a nossa pureza apenas vem pelo confronto(366), pelo questionamento interior(367), pelo choque com as pessoas difíceis, com as chefias autoritárias(368), onde nesses momentos alteramos o rumo da nossa existência e fazemos história com as nossas próprias vidas.(369)
O que ecoa tão profundamente é que o humano acontece no entre(370). No vão entre dois olhares(371). No tremor entre duas presenças.(372)
E é aí que nos encontramos(373). É aí que nos descobrimos mais inteiros, mais vivos, mais reais.(374)
A relação é o espelho que não mente(375). É na relação que vamos aprofundar o nosso carácter(376), a aprender a estar mais calados(377), a exercer a TERNURA como modo de estimar, de amar, de compreender.(378)
Raciocínio 20 - A Paz Interior o motor da vida (3/3): a regra do silêncio, deixando de ter razão
Raciocínio 87 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - a pausa-silêncio transforma-se no par ternura-silêncio
Sem o outro, ficamos a girar sobre nós mesmos como um planeta sem sol(379). Mas quando há encontro, até os lados mais escuros ganham luz.(380)
Reconhecemos que nos tornamos mais, quando tocamos os outros com MIMO, com justeza, com presença.(381)
Raciocínio 30 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 3): ofereça presença
E esse toque não precisa de palavras bonitas nem de ideologias, basta que sejamos verdadeiros.(382)
Desculpem-me o que vou dizer contra as muitas espiritualidades e filosofias (apenas respeito)(383): O humano não é uma essência escondida a ser alcançada por meditação solitária(384). É uma construção afetiva, feita de gestos pequenos, olhares demorados, silêncios partilhados.(385)
É na pele do mundo e não fora dele que nos tornamos quem somos(386). E isso para nós é das formas mais profundas de espiritualidade: uma espiritualidade com chão, com abraço, com riso, com falhas.(387)
Uma espiritualidade em carne viva, onde o milagre é poder dizer:(388)
"Descubro-me mais inteiro quando me deixo tocar, quando toco, quando sou presença na vida dos outros".(389)
Seja essa presença!(390)
Abraço fraternoNuno Miguel R. S. Gomes
(Sociólogo e Filósofo)
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