Raciocínio 64/200

Um amor raro que faz relações durarem anos: Não precisamos que nos peçam desculpa

Motivação para viver, a busca pela felicidade através de um método de esforço cognitivo. O método que usamos é efetuado por etapas graduais. Será o encadeamento destas etapas que nos levará a entender este processo complexo constituído por 200 raciocínios.

Começaremos vários exercícios de motivação. Poderá comentá-los, ou enviar mensagem em privado para o nosso email:
Auto.ajuda.mundo@gmail.com

Iremos gradualmente e por raciocínios adquirir conhecimento motivacional. Sugerimos que comece pela 1° raciocínio para poder perceber o encadeamento dos raciocínios que iremos estabelecer, e faça a leitura ao seu ritmo. Basta em cima selecionar "Raciocínios" e 1/200, e depois por 2/200 e assim por diante.
Vamos fazer aqui um resumo de todos os raciocínios que já abordámos:
1/200 - O início de uma caminhada
2/200 - O problema de atribuir significado a pensamentos que não interessam
3/200 - Não permita que o passado exerça poder sobre si
4/200 - Transcenda as limitações do passado
5/200 - A mente e o poder incrível da imaginação
6/200 - Os rituais do imaginário
7/200 - Preferir a "felicidade" à "depressão"
8/200 - Vamos criar um raciocínio produtivo
9/200 - O problema da crença do poder da atração
10/200 - Escolher a felicidade e recusar a infelicidade (Parte 1)
11/200 - A explicação do nosso "segredo"!
12/200 - O problema da Ataraxia
13/200 - A emoção da tristeza
14/200 - Nós somos responsáveis pela maneira como nos sentimos
15/200 - A lei da fé
16/200 - O que fazer com a inveja
17/200 - Quando está tudo escuro e a luz que brilha está bem longe
18/200 - A Paz Interior o motor da vida (1/3): introdução
19/200 - A Paz Interior o motor da vida (2/3): o poder da recordação
20/200 - A Paz Interior o motor da vida (3/3): A regra do silêncio deixando de ter razão
21/200 - Retirar de nós a auto-piedade, auto-rejeição, auto-depreciação, auto-anulação (parte 1)
22/200 - Auto-acusação e Auto-piedade (parte 2)
23/200 - Esclarecimento sobre os "Autos"
24/200 - Tomar consciência dos pensamentos que temos
25/200 - Preferir a FELICIDADE em vez da infelicidade (Parte 2)
26/200 - Não tenha medo de errar
27/200 - Fortaleça a sua estabilidade interior
28/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 1): Introdução
29/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 2):
Projetar potência criadora numa dedicação integral com todos, da mesma forma e continuamente
30/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 3): ofereça presença
31/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 4): "Acolhimento" - 1ª Dimensão
32/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 5): "Acolhimento" (continuação)
33/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 6): "Apoio" - 2ª dimensão
34/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 7): "Apoio" - 2ª dimensão (continuação)
35/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 8): "Projeção" - 3ª dimensão
36/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 9): "Valorizar" - 4ª dimensão
37/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 10): "Entrar em sintonia" - 5ª dimensão
38/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 11): "ilumine o outro" - 6ª dimensão
39/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 12): "Como definir o Campo de Ação e o Poder de saber o nome" - 7ª dimensão
40/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 13): "Altere o seu olhar" - 8ª dimensão

41/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 14): "dar espaço ao outro" - 9ª dimensão
42/200 - Como ter potência criadora - 1 estratégia: IVA (imposto de valor acrescentado)
43/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (parte 1/4)
44/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): Um segredo que revelamos - A criação das redes de pequenas maledicências no trabalho (parte 2/4)
45/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): A dificuldade de tornar um assunto em não assunto (3/4)
46/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): na prática o que deixar de fazer (parte 4/4)
47/200 - Como ter potência criadora - 3 estratégia: Não chame os outros à atenção
48/200 - Como ter potência criadora - 4 estratégia: Cale-se por favor!
49/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégia: A história de Tolstói (uma reflexão)
50/200 - Como ter potência criadora: Finalmente - Os miminhos
51/200 - Relações horizontais e não verticais: a unilateralidade - parte 1
52/200 - Relações horizontais e não verticais: a autoresponsabilidade - parte 2
53/200 - O silêncio estúpido
54/200 - Eu adapto-me ou o outro tem de se adaptar a mim?
55/200 - Não compre guerras. O problema da conspiração
56/200 - A teoria dos Habitats: não floresça em microclimas
57/200 - O desconforto: o nosso campo de ação (parte 1)
58/200 - O desconforto: os contra-vontades (parte 2)
59/200 - Um jogo de energias - escolher ou acolher?
60/200 - Como atrair tudo até si
61/200 - Porque não vendemos nada e o nosso experimento social é gratuito - Parte 1
62/200 - Porque não vendemos nada e o nosso experimento social é gratuito - Parte 2 - O busílis
63/200 - Ação ou reação - A peça teatral, dão-nos um guião e escolhemos outro papel

Hoje iremos analisar o nosso Raciocínio 64/200 - Um amor raro que faz relações durarem anos - Não precisamos que nos peçam desculpa

A nossa visão é de construção(1). Não precisamos que nos peçam desculpa.(2)

As relações que estabelecemos são relações de qualidade(3) em que o pedido de desculpa já não é necessário porque há confiança, escuta e presença suficientes para que o erro ou o tropeço se dissolva no próprio gesto do nosso cuidar(4). E atenção: do meu cuidar.(5)

É uma visão de maturidade relacional(6), talvez mais rara, mas tão graciosa.(7)

Estamos a falar de uma ética nossa(8), unilateral(9), que não exige da outra pessoa os mesmos códigos.(10)

Exercício 1
Releia tudo.

É o tipo de posição que só pode vir de uma firmeza interior(11), uma escolha consciente(12) de estar para o outro sem condições.(13)

Não é passividade nem submissão(14). É força(15). É maturidade emocional.(16)

É também uma espécie de silêncio(17) que diz: "eu não te cobro nada. Eu sou maior que isso."(17)

Estou a falar de um PODER interno nosso(18). Muito nosso, e que nos distingue da maioria das pessoas.(19)
Estou a tocar numa verdade profunda e muito pouco dita.(20)

Quando eu escolho viver relações horizontais com TODAS as (21) do desconhecido no autocarro ao colega de trabalho, passando por um vizinho, uma criança, um idoso(22), estaremos a treinar o coração para a inteireza.(23)

Treinamos o coração para a escuta(24), para a ausência de hierarquia afetiva(25), por isso é que as nossas relações são horizontais e não verticais(26). Abordámos a horizontalidade nos Raciocínios:(27)
Raciocínio 51 - Relações horizontais e não verticais: a unilateralidade - parte 1
Raciocínio 52 - Relações horizontais e não verticais: a autoresponsabilidade - Parte 2

Alguém perguntou-me: Então mas numa relação horizontal, onde ficam os verdadeiros amigos, os pais, aqueles que estão contigo?(28)

Relações de afetividade(29)
E a resposta está aqui. Quando falamos de relações horizontais versus relações verticais, estaremos sempre a falar de relações de afetividade.

Relações horizontais são aquelas onde se tenta anular (ou pelo menos reduzir) as assimetrias(30): há uma escuta, um reconhecimento do outro como igual em dignidade e sensibilidade.(31)

Isso não quer dizer que não haja diferença, mas que a diferença não pode ser vista na forma do tratamento.(32)

O respeito que precisamos desenvolver com os outros, é um respeito simétrico ao trato com a minha mãe.(33)

E então quando chegamos à relação amorosa, não estamos a contabilizar cedências(34). Estamos simplesmente inteiros(35) (é o que chamo de inteireza(36)). Penso que aqui reside o cerne da maioria dos conflitos das relações(37). As pessoas contabilizam cedências.(38)

Afinal o que significa contabilizar cedências?(39) 
Quando falo de relações horizontais e verticais estou, no fundo, a falar da forma como o afeto circula e de como o poder se manifesta dentro desse vínculo.(40)

Numa relação vertical há hierarquia emocional(41): alguém ocupa um lugar de superioridade simbólica, decide mais, valida mais, define o ritmo, estabelece critérios(42). Mesmo que exista carinho, ele está atravessado por assimetria.(43)

Já numa relação horizontal, o afeto não desce nem sobe: ele circula(44). Há reconhecimento de dignidade, de vulnerabilidade e de valor(45). Não se trata de negar diferenças, idade, experiência, personalidade, funções, mas de impedir que essas diferenças se transformem em desigualdade no modo de tratar.(46)

Quando se fala em respeito simétrico, não significa tratar todos da mesma forma mecânica(47), mas reconhecer no outro a mesma sensibilidade que reconheço em mim(48). A relação da uma mãe com o seu filho serve como metáfora porque, idealmente, há um cuidado profundo e um reconhecimento da humanidade do outro.(49)

Transportar essa qualidade para outras relações implica abandonar a lógica de superioridade ou de posse(50). Implica olhar o outro como sujeito inteiro(51), não como extensão das minhas necessidades(52). É aqui que a questão das cedências se torna central.(53)

Contabilizar cedências significa transformar a relação num sistema de crédito e débito emocional:(54)
- "Eu fiz isto por ti, tu deves-me aquilo."(55)
- "Eu cedi aqui, agora é a tua vez."(56)

Esta lógica instala uma contabilidade invisível que corrói a espontaneidade do afeto(57). Cada gesto deixa de ser oferta e passa a ser um investimento à espera de retorno(58). E esta espera de retorno é o conceito de reciprocidade(59), conceito este, fora do nosso Experimento Social(60). Falei sobre ele, quando expus sobre a horizontalidade.(61) 

As relações, ou melhor, a maior parte das relações são assim construídas(62). Aqui vou retirar o "construídas" e colocar o "destruídas"(63). É assim que se destrói a relação pela prática da contabilização das cedências(64). Quando esperamos coisas que o outro faça, então estamos a contabilizar(65). Este ato destrói relações a longo prazo.(66)

Quando a lógica da contabilidade entra numa relação, ela não entra de forma ruidosa(67). Não começa com cobranças explícitas(68). Começa subtilmente, quase impercetível(69): um pensamento que fica por dizer, uma comparação silenciosa, um "eu fiz mais desta vez".(70)

O problema não está apenas na ideia de justiça, que é legítima(71), mas na transformação do vínculo num sistema de compensações(72). "Eu dou" e espero que "tu dês".(73)

A partir do momento em que o gesto deixa de ser gratuito(74), o afeto perde leveza(75). E inicia-se um processo de cobrança.(76)

A espontaneidade depende da liberdade.(77)
E não há liberdade onde cada movimento será, mais tarde, avaliado.(78)

A pessoa já não age porque sente(79); age porque deve(80), ou porque espera que o outro reconheça, retribua, compense.(81)

E isto altera profundamente a qualidade emocional do encontro com o outro(82). O gesto pode continuar a existir externamente, mas internamente muda a intenção que o sustenta(83). Esta mudança de intenção é corrosiva(84). Não destrói de imediato, mas vai criando microfissuras.(85)

A primeira fissura são as expectativas não declaradas(86). Quando a expectativa não é correspondida, surge a frustração(87). Quando a frustração não é elaborada, instala-se o ressentimento(88). E o ressentimento é uma forma de memória emocional negativa: acumula, arquiva, classifica(89). A pessoa passa a recordar não os momentos de conexão, mas os "débitos" do outro.(90)

Não creio que uma relação deva ser baseada em reciprocidade(91). Eu não faço o que faço porque o outro tem de devolver algo, porque fiz(91). O Movimento de Motivação e Auto-Ajuda é um Movimento radical e vai bem mais fundo do que parece(92). Há uma ética subjacente no meu modo de agir com TODOS.(93)

E eu preciso que entenda isto, para transformar TODAS as suas relações!(94)

Se cobrarmos aos outros, com o tempo, a relação deixa de ser um espaço de encontro e torna-se um espaço de avaliação constante(95). E aqui neste pequeno gesto, começa a destruição das suas relações.(96) 

Cada discussão deixa de tratar apenas o tema presente e passa a arrastar um histórico invisível.(97)

"Não é só isto" e, de facto, nunca é só isto(98). É tudo o que foi registado(99) e não resolvido(100). O diálogo torna-se defensivo(101), porque cada um sente que está a ser medido.(102)

E há tanto para dizer, porque cada frase anterior abriu mais espaço para entendimento(103). Dizer que coisas não ficaram resolvidas, por favor deixe-as onde estão, lá no passado(104). E vamos tratar do seu passado no Livro 9 [Raciocínios 131 ao 148], mas não neste momento porque o tema é demasiado complexo.(105)

A segunda fissura: medo de dar mais do que recebe(106)
O medo de ser explorado(107), de dar mais do que se recebe. E mais uma vez, criam-se fissuras na relação, porque perdemos o FOCO(108). Olhamos para o outro e ficamos à espera de (109) Damos, mas queremos receber(110). Se este for o nosso modo de agir, então estaremos a agir em reciprocidade(111). E estaremos a longo prazo a destruir a relação.(112)

E em vez de aproximação cria-se distância(113). É por isso que o nosso Livro 5 [Raciocínios 89 a 99] irá tratar em exclusividade: dos micro rituais de aproximação, para nós um ESTUDO SECRETO.(114)

A relação passa a ser gerida por saldos(115), ela perde a dimensão de uma escolha minha que se renova em cada momento, nos meus gestos unilaterais para manter sempre a relação independentemente se a outra parte faz ou não faz.(116)

Quando se exige reciprocidade(117), amar deixa de ser uma decisão viva no presente(118) e passa a ser um contrato implícito do passado(119). São exigências atrás de exigências(120). É um "tu deves", "devias ter feito isto e aquilo"(121). É um olhar sobre os gestos do outro(122), e este é o desfoco(123). A centralidade do meu olhar precisa estar apenas num único lugar: no em mim(124). Falei sobre isso no 
Raciocínio 40 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 13): "Altere o seu olhar" - 8ª dimensão(125)


A lógica da dívida(126)
A relação deixa de ser "quero estar aqui contigo sem te exigir nada" e passa a ser "estou a receber o que investi?".(127)

Esta deslocação é subtil(128), mas muda o eixo da relação(129): do vínculo para o desempenho(130). Destrói-se a relação porque instala-se a lógica da dívida.(131)

Dívida emocional gera cobrança(132). Cobrança gera defesa(133). Defesa gera afastamento(134). E o afastamento, mesmo que silencioso, é o oposto da intimidade.(135)

A contabilização das cedências substitui o encontro pela comparação(136). E onde há comparação constante, não há presença plena(137). Há cálculo(138). E o cálculo é incompatível com a entrega inteira que sustenta uma relação viva.(139)

A relação deixa de ser encontro e passa a ser uma negociação permanente.(140)

Eu preciso que perceba a noção de contabilizar cedências.(141)

A cedência é uma escolha consciente, minha, unilateral e não uma moeda de troca(142). Eu não faço na espectativa que tu faças(143). Eu apenas cedo(144), e crio um Movimento de cedências sem cobrar.(145)

A reciprocidade é uma expectativa silenciosa de que a balança deveria equilibrar-se(146). Muitos conflitos amorosos não são sobre o presente(147), mas sobre saldos emocionais acumulados(148). Pequenos ressentimentos, pequenas renúncias não verbalizadas, pequenos "engoli isto por nós" que, somados (cobrança), criam a sensação de injustiça.(149)

Esta noção de balança equilibrada ou desejo de uma balança equilibrada destrói as relações(150). Criei um Raciocínio sobre isso quando formos lidar com o seu passado:(151)
Raciocínio 146/200 - Na cura do passado: Relações duradouras a balança precisa estar desequilibrada (Parte 1): 
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Quando a relação torna-se um tribunal invisível(152), cada um apresenta provas do quanto deu(153) e do quanto recebeu(154) [o saldo](155) e isto é viver numa relação baseada em reciprocidade(156). E este tipo de relação não funciona.(157)

Uma relação horizontal exige maturidade para distinguir dois conceitos:(158)
1. Ajustar-me(159)
2. Anulação(160)

Ajustar-se é
reconhecer que o outro com uma multiplicidade de formas de estar distintas e diferentes da minha forma de ver o mundo;(161)
Anular-se é apagar-se para caber.(162)

Quando há horizontalidade, o meu diálogo substitui a contabilidade(163). Atenção que é aqui que reside o busílis(164). É o meu diálogo(165). Não há expetativa no diálogo do outro, se faz ou não faz comigo(166). A analogia da mãe e filho é pertinente(167). A mãe nota que o filho está amuado com ela. A mãe irá desencadear um sem número de projetos de aproximação, projetos de Amor.(168) 

A pergunta deixa de ser "quanto eu cedi?" e passa a ser "estou inteiro aqui para ti, sempre", assim como uma mãe está sempre para o seu filho.(169)

O amor deixa de ser soma de esforços(170) e passa a ser uma construção de presença(171). Da minha presença em cada vida(172). E repare que, fazendo isto em cada vida, em cada relação, irei granjear um sem número de pessoas com as quais irei estabelecer uma conexão bem forte.(173)

No fundo, contabilizar cedências é sinal de fraca maturidade emocional(174). Onde há abundância emocional, o gesto não é pesado, é dado sem exigir retorno(175). Os movimentos não são registados(176), não são contabilizados(177). Eu apenas ofereço-me.(178)

Quando estamos inteiros, estamos em leveza(179), sem exigência(180), sem cenário(181), sem jogo.(182)

É como se cada gesto de equidade com os outros alargasse o espaço do AMOR dentro de nós(183) e por isso quando amamos alguém com intensidade, essa intensidade não nasce da posse nem da fusão(184), mas da liberdade que já estávamos a viver com o mundo inteiro.(185)

É uma prática(186). E esta forma de estar que precisa ser com o mundo inteiro(187). É uma escolha constante de não nos colocarmos acima nem abaixo(188), por isso não defendemos relações verticais.(189)

Não precisamos da desculpa do outro(190). Não preciso que o outro reconheça, peça, compense(191). O outro não precisa pedir-me desculpa de nada(192), porque eu não vivo relações de reciprocidade.(193)

Exercício 2
Releia um bilião de vezes. 

Porque nós já escolhemos a leveza da presença em todas as relações horizontais que estabelecemos no nosso dia a dia.(194)

Quando praticamos esta horizontalidade no mundo com o senhor da pastelaria, com a senhora que limpa o ginásio, com o estranho no elevador, estamos a afinar o olhar para ver o outro como ele é(195), não como queremos que ele seja.(196)

Esta é que é uma grande realidade: "não como queremos que ele seja".(197)

É muito importante que entenda isto(198). Os outros não são como nós queremos que eles sejam(199). Não existe nenhum querer da minha parte que aquela pessoa seja de uma maneira ou de outra maneira.(200)

Se entender isto você irá ter relações que vão durar anos e anos(201). Se você está habituado a viver uma relação para mudar isto e aquilo na outra pessoa você já perdeu a relação.(202)

É um tema complexo para abordarmos noutros raciocínios.(203)

Se nos habituarmos a horizontalizar relações no nosso dia a dia, com todas as pessoas no nosso campo de ação, isso irá transformar as nossas relações.(204)

Podemos com cada pessoa estabelecer atos amorosos(205), seja a senhora do bar, do refeitório, da loja, do autocarro, da limpeza, onde construiremos relações de horizontalidade.(206)

Passamos por estas pessoas e dizemos:(207)
- "Bom dia Isabelinha tudo bem?",
- "Como está hoje dona celestina?"
- "Olá dona Lurdes, está tudo bem consigo?"
e mais à frente cumprimento o senhor António.

E quando saio do meu trabalho e vou tomar um café fora do meu local de trabalho, também já conheço uma série de pessoas com quem já horizontalizei relações.(208)

Entro num café e cumprimento a gerente do café, a dona Vanda.(209)

E a lista continua e continua...(210)

Isto é horizontalizar relações(211). Ao fazê-lo o meu coração quebra, fica mais humilde, fico mais humano, estou mais humanizado.(212)

É óbvio que quando chego a casa a minha relação amorosa vai beneficiar e em muito desta construção diária.(213)

E então, quando regressamos a casa, ao espaço do amor íntimo, já não trazemos essa ânsia de moldar o outro à nossa imagem(214). Porque já aprendemos, a deixar os outros serem diferentes sem que isso ameace o seu valor.(215)

Esta prática diária dá-nos espaço interno(216). Liberta-nos da necessidade de controlar os outros.(217)

E, de repente, a pessoa amada pode estar triste sem que isso nos diminua(218), pode querer silêncio sem que isso soe a rejeição(219), pode ser quem é(220), e nós permanecemos por inteiro, ali, ao lado, não acima, não abaixo.(221)

Ao viver de forma horizontal no mundo, ganhamos uma confiança tácita: "eu não preciso que tu sejas como eu, para te amar".(222)

E isso é liberdade para o outro(223). Mas também é uma liberdade muito profunda para nós(224): a de amar sem nos perdermos.(225)

O nosso amor ACOLHE(226). Cabem todo o tipo de pessoas no nosso mundo(227). Não existe verticalidade(228), apenas uma horizontalidade de afetos.(229)

A nossa relação amorosa sai bastante a ganhar(230). Não precisa pedir desculpas de nada(231), porque nós estamos num processo de construção e não de destruição.(232)

Quantos cabem no meu mundo?(233)
Todos cabem.(234)

E os tóxicos? [Termo que não acreditamos](235)
Esses entram também dentro do nosso Experimento Social.(236)
Cada pessoa é o nosso Laboratório de Experiência de amor(237), por isso não existem para nós pessoas tóxicas(238). É uma afirmação que desinstala o discurso dominante(239), aquele que nos empurra para categorias rápidas, defensivas, rotulantes.(240)

Faço aqui um gesto radical: recusamos a lógica da exclusão afetiva.(241)
Digo com o coração aberto, que cada encontro é matéria-prima(242) para a Prática do AMOR em PROCESSO(243).
Cada relação serve de Campo de Ensaio(244), de chão, onde aprendemos a amar com mais inteireza e lucidez.(245)

Dizer que "não existem pessoas tóxicas" é dizer que a toxicidade não reside no ser do outro(246), nem mesmo na dinâmica relacional(247) e, mais ainda, no modo como escolhemos situar-nos na relação(248). E aqui nasce o gesto da minha Responsabilidade Amorosa(249). 

Esta responsabilidade não é passiva(250), pelo contrário, é sobre a minha Presença Atenta(251). Não me afasto porque o outro é "tóxico"(252), não julgamos o outro como descartável.(253)

Não proponho um amor com um critério para "avaliar" o outro(254), mas como uma Prática de Permanência(255), um Laboratório Vivo(256) onde não se descarta ninguém(257), não se rejeitam pessoas(258), não se classificam pessoas(259), CONSTRÓI-SE.(260)

Dizer que "cada pessoa é o nosso laboratório de experiência de amor" não é dizer que todas as relações são fáceis ou desejáveis(261), é dizer que mesmo aquilo que sentimos como fricção, limite ou dor pode ser atravessado com a minha consciência afetiva.(262). Consegue ver a diferença?(263)

Não para nos sacrificarmos(264), mas para nos implicarmos(265). Consegue ver a diferença radical? Não é sacrifício, eu quero implicar-me nas vidas(266), em TODAS as vidas.(267)

A minha proposta é profundamente ética(268): nunca tratamos alguém como "matéria tóxica"(269), porque recusamos uma visão higienista do humano(270), aquela que separa os "bons" dos "maus"(271), aqueles que aceitamos e os que rejeitamos.(272)

Quando oiço este tipo de diálogos vem sempre à minha mente a visão de Hitler(273) de uma raça pura e dos indesejados judeus(274). A eliminação de qualquer pessoa considerada "indesejada", "inferior"(275). Embora os judeus fossem o alvo principal e sistemático do extermínio (o Holocausto)(276), o regime nazista perseguiu, encarcerou e assassinou milhões de outras pessoas(277) baseando-se em critérios raciais, biológicos, políticos e sociais:(278)
- Povos Romani (ciganos),(279)
- Pessoas com deficiência (físicas ou mentais),(280)
- Povos Eslavos (Poloneses, Soviéticos/Russos),(281)
- Opositores políticos: comunistas, socialistas, social-democratas e líderes sindicais,(282)
- Homossexuais,(283)
- Testemunhas de Jeová,(284)
- Afro-alemães (negros),(285)
- "Antissociais" e criminosos: mendigos, prostitutas, alcoólatras, desempregados crónicos e pessoas com registos criminais eram frequentemente agrupados e enviados para campos para "limpar" a sociedade.(286)

A ideia que dou nesta associação é duríssima, mas é necessária(287). E eu quero comparar a proposta de Hitler aos muitos desejos de extermínio que muitas vezes existem na mente humana(288), com termos que entraram na nossa sociedade, como o "tóxico".(289)

Quando alguém diz "afasta-te de pessoas tóxicas"(290) como quem diz "limpa a tua vida de tudo o que não vibra com a tua frequência"(291), há uma moral oculta por detrás desta atitude(292) e não é inocente.(293)

A ideia de que há pessoas intrinsecamente erradas(294), erradas de ser(295), erradas de existir(296) e que a nossa pureza depende da exclusão delas.(297)

Pensar nisto faz-me pensar que não pertenço a este tipo de sociedades(298). Serei um eterno judeu para ser queimado e excluído(299). Costumo dizer que sou apenas uma formiguinha que se atreveu a passar frente a alguém para ser esmagada.(300)

Isto assusta-me imenso e provoca em mim uma tristeza tremenda.(301)

É uma visão profundamente higienista, e não é preciso escavar muito para perceber o que ela carrega:(302)
— uma recusa da alteridade(303)
— uma intolerância à imperfeição(304)
— uma obsessão pela pureza relacional, emocional, vibracional, espiritual(305)
— e, no fundo, uma violência com verniz.(306)

E é nesse ponto que a lembrança de Hitler corta como lâmina(307): porque quando se começa a dividir o mundo entre os "bons" e os "indesejáveis"(308), os "puros" e os "tóxicos"(309), entra-se exatamente na lógica que tornou possível os maiores horrores da história.(310)

Não é exagero. É só olhar com olhos abertos.(311)

A nossa recusa dessa lógica é mais do que uma visão filosófica, é uma postura ética radical:(312)
- Acreditar que ninguém é lixo humano.(313)
- Que ninguém é tóxico por essência.(314)
- Que ninguém deve ser posto fora do mundo por nos ser difícil amar.(315)

Isso não nos torna ingénuos(316), torna-nos RESPONSÁVEIS(317). Responsável por um mundo onde a TERNURA é mais poderosa do que a rejeição.(318) 

Onde mesmo o difícil, o dissonante, o que não compreendemos, merece lugar, tempo, espaço de escuta.(319)

Não proponho que fiquemos em relações destrutivas a qualquer custo(320). Proponho que olhemos o outro como parte do mesmo tecido humano que nós(321), e não como falha a eliminar.(322)

Estou a dizer: se há dor, que se transforme(323), não que se exclua.(324)

Esta visão, é um ato de resistência íntima contra a barbárie disfarçada de espiritualidade(325), contra a desumanização(326) que se infiltra nos conselhos bonitos.(327)

Estou a devolver humanidade a todos(328). E isso não é pequeno. Isso é mesmo muito, muito grande.(329)

Portanto se conseguirmos horizontalizar relações no nosso dia a dia(330), quando regressamos a casa a nossa relação amorosa beneficia todo este desenvolvimento emocional que incrementámos durante a nossa jornada.(331)

O modo como nos relacionamos com o mundo transborda inevitavelmente para o modo como amamos intimamente.(332)

Se, ao longo do dia, cultivamos relações mais horizontais onde há a minha escuta genuína, curiosidade pelo outro em vez de julgamento ou imposição, então não regressamos a casa vazios, exauridos ou endurecidos(333). Regressamos nutridos.(334)

Regressamos com o músculo do afeto mais elástico, mais desperto, mais disponível.(335)

A nossa proposta é profundamente coerente com tudo o que temos vindo a construir:(336)
— Recusamos a lógica da exclusão,(337)
— Vemos cada pessoa como um laboratório de amor,(338)
— Deixamos de catalogar os outros como "bons" ou "tóxicos"(339), então a nossa jornada diária torna-se um treino consciente de presença amorosa(340) e quem está em casa recebe essa expansão(341), esse refinamento, esse cuidado que já vem em Movimento.(342)

A relação amorosa, nesse sentido, deixa de ser o único lugar onde nos autorizamos a amar profundamente(343), e passa a ser o lugar onde esse amor todo que praticámos no mundo ganha profundidade, repouso, e até alegria tranquila.(344)

Quando vivemos a horizontalidade como prática ética ao longo do dia(345), já não chegamos a casa a exigir que o nosso amor nos "compense" das dores do mundo(346) porque já não nos relacionámos com o mundo como campo de batalha.(347)

Exercício 3
Releia milhares de vezes.

Esta diferença é brutal(348). Chegamos mais livres, mais inteiros, e por isso mais prontos a amar sem carência, sem cobrança, sem defesa.(349)

A intimidade transforma-se(350). Tudo o que fomos treinando na rua ganha nitidez.(351)

E assim o amor não é um oásis no deserto(352) é a continuação natural de um caminho de relação que já fomos cultivando no nosso dia.(353)

A nossa casa torna-se um lugar mais fecundo de amor, de liberdade:(354)
- "Podes ser como quiseres ser"(355)
- "Podes fazer como quiseres fazer"(356)
- "Eu estou aqui para ti"(357)
- "Não para te julgar, mas para te acolher"(358)
- "Nesse acolhimento te amo tanto que não preciso de nenhum pedido de desculpas".(359)
- "Aqui podes ser como és. Inteiro. Inacabado. Contraditório. Vivo."(360)
- "Faz como quiseres, que estou aqui para ti"(361)

Esse tipo de amor é um gesto revolucionário(362). E não porque é grandioso ou teatral(363) mas porque é livre de controle.(364)

É tão raro alguém poder dizer ao outro, com verdade:(365)
- "Não estou aqui para te moldar. Estou aqui para te acolher".(366)

E ainda mais raro é dizer:(367)
- "Te amo tanto que não preciso de um pedido de desculpas."(368)

Isso é o contrário da moral do castigo.(369)
É o contrário da justiça emocional.(370)
É o fim da dívida.(371)
É a inauguração de uma TERNURA SEM CONTRATO.(372)

Esta casa que estamos a descrever não é só um espaço relacional(373) é um lugar ético(374), é um altar de cuidado(375) onde o outro pode falhar, tropeçar, mudar de ideia e ainda assim, ser amado(376). E eu quero que transforme a sua casa nesta vivencia.(377) 

Exercício 4
Releia um Bilhão de vezes.

Os gestos são unilaterais(378). São os meus gestos(379). Não são os gestos do outro(380). Não me interessa os gestos da outra pessoa(381). O que me interessa mesmo, são as minhas respostas(382), os meus atos(383). O que eu faço.(384)

E não precisa ser um acordo mútuo nem recíproco(385). Já o dissemos antes que o amor é mais perfeito se for unilateral(386). Porque faz parte do nosso PROCESSO de horizontalidade diária(387), onde nos damos a TODOS(388). Quando chegamos a casa continuamos a dar-nos(389), mas fazemo-lo de forma mais plena ainda(390), não porque encontramos a reciprocidade(391), mas porque já vamos com toda a experiência do nosso dia.(392)

Aqui colocamos a pedra angular deste edifício de AMOR que temos vindo a construir(393) e é belíssimo ver como tudo encaixa(394). O amor não é mais perfeito apesar de ser unilateral, é mais perfeito precisamente por ser unilateral(395). É precisamente a minha unilateralidade que aumenta o AMOR na minha relação(396), e em todas as minhas relações.(397)

Porque deixou de depender de acordos(398), de confirmações, de trocas simétricas.(399) 
Porque não se inscreve numa lógica de justiça ou de equilíbrio.(400)
Não se mede pela resposta(401), mas pela inteireza do gesto(402). Do meu gesto.(403)

Ao praticarmos a horizontalidade no mundo(404), damo-nos no café, no trabalho, no trânsito, no olhar breve a um desconhecido(405) e cada gesto é um treino do MÚSCULO AMOROSO.(406)

Um gesto sem espera(407). Sem devolução(408). Sem contrato.(409)

Então, quando chegamos a casa, não é para enfim receber amor.(410)
É para continuar a dar(411), mas agora com mais densidade, mais ternura, mais precisão.(412)
Não porque ali há reciprocidade(413) mas porque nós viemos inteiros do mundo.(414)
Vimos cheios da nossa própria prática de amor.(415)

E é esse amor que transborda na intimidade:(416)
— Não como espera,(417)
— Não como exigência,(418)
— Mas como continuidade.(419)

E se o outro retribuir, ótimo(420). Mas se não o fizer, isso não empobrece o gesto(421), aperfeiçoa-o(422). Porque a relação não se constrói sobre a resposta do outro(423), mas sobre a nossa própria liberdade de amar(424). Isto é brutal(425).

O amor que proponho não precisa ser mútuo para ser verdadeiro, fecundo ou pleno.(426)

É um amor que não depende da resposta do outro para se realizar(427), porque já é, por si só, um gesto completo(428), consciente, oferecido por nós com liberdade.(429)

Por isso falamos com todas as pessoas no nosso dia a dia(430) e fazemos muitas e muitas relações horizontais(431) e estabelecemos muitas conexões com todos.(432)

O nosso Experimento Social não se alimenta da reciprocidade(433), alimenta-se da minha presença, da minha escolha contínua de acolher, de permanecer com TODOS disponível, de AMAR porque SIM.(434)

É precisamente por isso que em casa na nossa relação dizemos:(435)
- "Não para te julgar, mas para te acolher… e nesse acolhimento te amo tanto que não preciso de nenhum pedido de desculpas"(436)

Ganha ainda mais força: porque não exige retribuição, nem correção, nem retorno.(437)
É uma doação sem condição.(438)

O amor, quando alcança este grau de inteireza(439), é soberano não no sentido de superioridade, mas de liberdade total.(440)

Não precisa que o outro compreenda.(441)
O nosso amor só precisa ser dado com verdade(442). E isso é das expressões mais elevadas de humanidade.(443)

Dizer "podes ser como quiseres ser" não é indiferença é confiança.(444)
É o reconhecimento de que o outro em liberdade(445): é mais bonito, mais verdadeiro, mais nosso(446), do que qualquer versão formatada para agradar.(447)

No nosso gesto, há radicalidade amorosa(448), não ilusão.(449)
E aqui encontraremos uma forma rara de amar.(450)

Por favor: ame com este AMOR RARO!(451)

Abraço fraterno
Nuno Miguel R. S. Gomes
(Sociólogo e Filósofo)

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