Raciocínio 99/200
Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar: a dissonância como resistência do meu interior: um ouvir domesticado

Motivação para viver, a busca pela felicidade através de um método de esforço cognitivo. O método que usamos é efetuado por etapas graduais. Será o encadeamento destas etapas que nos levará a entender este processo complexo constituído por 200 raciocínios.

Começaremos vários exercícios de motivação. Poderá comentá-los, ou enviar mensagem em privado para o nosso email: Auto.ajuda.mundo@gmail.com

Iremos gradualmente e por raciocínios adquirir conhecimento motivacional. Sugerimos que comece pela 1° raciocínio para poder perceber o encadeamento dos raciocínios que iremos estabelecer, e faça a leitura ao seu ritmo. Basta em cima selecionar "Raciocínios" e 1/200, e depois por 2/200 e assim por diante.
Vamos fazer aqui um resumo de todos os raciocínios que já abordámos:
1/200 - O início de uma caminhada
2/200 - O problema de atribuir significado a pensamentos que não interessam
3/200 - Não permita que o passado exerça poder sobre si
4/200 - Transcenda as limitações do passado
5/200 - A mente e o poder incrível da imaginação
6/200 - Os rituais do imaginário
7/200 - Preferir a "felicidade" à "depressão"
8/200 - Vamos criar um raciocínio produtivo
9/200 - O problema da crença do poder da atração
10/200 - Escolher a felicidade e recusar a infelicidade (Parte 1)
11/200 - A explicação do nosso "segredo"!
12/200 - O problema da Ataraxia
13/200 - A emoção da tristeza
14/200 - Nós somos responsáveis pela maneira como nos sentimos
15/200 - A lei da fé
16/200 - O que fazer com a inveja
17/200 - Quando está tudo escuro e a luz que brilha está bem longe
18/200 - A Paz Interior o motor da vida (1/3): introdução
19/200 - A Paz Interior o motor da vida (2/3): o poder da recordação
20/200 - A Paz Interior o motor da vida (3/3): A regra do silêncio deixando de ter razão
21/200 - Retirar de nós a auto-piedade, auto-rejeição, auto-depreciação, auto-anulação (parte 1)
22/200 - Auto-acusação e Auto-piedade (parte 2)
23/200 - Esclarecimento sobre os "Autos"
24/200 - Tomar consciência dos pensamentos que temos
25/200 - Preferir a FELICIDADE em vez da infelicidade (Parte 2)
26/200 - Não tenha medo de errar
27/200 - Fortaleça a sua estabilidade interior
28/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 1): Introdução
29/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 2):
Projetar potência criadora numa dedicação integral com todos, da mesma forma e continuamente
30/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 3): ofereça presença
31/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 4): "Acolhimento" - 1ª Dimensão
32/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 5): "Acolhimento" (continuação)
33/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 6): "Apoio" - 2ª dimensão
34/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 7): "Apoio" - 2ª dimensão (continuação)
35/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 8): "Projeção" - 3ª dimensão
36/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 9): "Valorizar" - 4ª dimensão
37/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 10): "Entrar em sintonia" - 5ª dimensão
38/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 11): "ilumine o outro" - 6ª dimensão
39/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 12): "Como definir o Campo de Ação e o Poder de saber o nome" - 7ª dimensão
40/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 13): "Altere o seu olhar" - 8ª dimensão

41/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 14): "dar espaço ao outro" - 9ª dimensão
42/200 - Como ter potência criadora - 1 estratégia: IVA (imposto de valor acrescentado)
43/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (parte 1/4)
44/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): Um segredo que revelamos - A criação das redes de pequenas maledicências no trabalho (parte 2/4)
45/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): A dificuldade de tornar um assunto em não assunto (3/4)
46/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): na prática o que deixar de fazer (parte 4/4)
47/200 - Como ter potência criadora - 3 estratégia: Não chame os outros à atenção
48/200 - Como ter potência criadora - 4 estratégia: Cale-se por favor!
49/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégia: A história de Tolstói (uma reflexão)
50/200 - Como ter potência criadora: Finalmente - Os miminhos
51/200 - Relações horizontais e não verticais: a unilateralidade - parte 1
52/200 - Relações horizontais e não verticais: a autoresponsabilidade - parte 2
53/200 - O silêncio estúpido
54/200 - Eu adapto-me ou o outro tem de se adaptar a mim?
55/200 - Não compre guerras. O problema da conspiração
56/200 - A teoria dos Habitats: não floresça em microclimas
57/200 - O desconforto: o nosso campo de ação (parte 1)
58/200 - O desconforto: os contra-vontades (parte 2)
59/200 - Um jogo de energias - escolher ou acolher?
60/200 - Como atrair tudo até si
61/200 - Porque não vendemos nada e o nosso experimento social é gratuito - Parte 1
62/200 - Porque não vendemos nada e o nosso experimento social é gratuito - Parte 2 - O busílis
63/200 - Ação ou reação - A peça teatral, dão-nos um guião e escolhemos outro papel
64/200 - Um amor raro que faz relações durarem anos - Não precisamos que nos peçam desculpa
65/200 - Dance nas suas relações sem impor coreografia
66/200 - Não chame ninguém a atenção (parte 2): uma revolução nos relacionamentos - espalhe flores
67/200 - Quando os outros endurecem o semblante: a ponte caída
68/200 - O mimo como forma de resistência contra o endurecimento do mundo: use a cor que tiver
69/200 - Um experimento social de acolhimento: não escolhemos mas acolhemos
70/200 - A solidão e o mundo das conexões: a porta enferrujada
71/200 - Mais vale só do que mal acompanhado: e se este ditado estiver incorreto?
72/200 - Solidão, Solitude e Solícito
73/200 - Os déspotas do nosso interior
74/200 - Conspiração: As vidas diminuídas (Parte 2)
75/200 - As minhas ações estão a construir uma melhor pessoa em mim?
76/200 - Somos amorais com os outros: o poder da agulha
77/200 - A dissonância é o lugar do encontro comigo mesmo: um tema secreto
78/200 - Diz o ditado popular: Toda a ação gera uma reação: e se em vez de reagir, agirmos?
79/200 - Presenças invisíveis, sem valor, pessoas descartáveis
80/200 - Encontre falhas e destrua a sua relação
81/200 - Uma reflexão SECRETA - O Mestre das nossas vidas: É no encontro com o outro que se dá o deslumbre de quem somos
82/200 - O Mestre dos Mestres: O lugar secreto
83/200 - O Mestre dos Mestres: Um tempo SECRETO
84/200 - O Mestre dos Mestres: deixe o riso brotar do seu interior
85/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação
86/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - um yoga diferente
87/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - a pausa-silêncio transforma-se no par ternura-silêncio
88/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - dois pares distintos: a ternura-silêncio e a ausência-silêncio
89/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - dois pares distintos: micro-sorriso e o semblante-fechado
90/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - O espelho-secreto
91/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - O ritual dentro de mim
92/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - O ritual fora de mim
93/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - O ritual fora e o ritual dentro de nós
94/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Conversão da vontade
95/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar (parte 1)
96/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar: casos de dissonância (parte 2)
97/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar: a dissonância como alerta do que se passa dentro de mim
98/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar: a dissonância como resistência do meu interior: o portal

Hoje iremos analisar o nosso Raciocínio 99/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar: a dissonância como resistência do meu interior: um ouvir domesticado

O tema da dissonância é muito vasto(1). E não consigo dizer tudo apenas num Raciocínio, por isso estamos dentro de um PROCESSO de transformação interior.(2)

Temos a resistência do nosso interior(3) através de um modo de escuta que está domesticado(4) por um ouvir que não está desenvolvido.(5)

Como se o ouvido tivesse sido ensinado a ouvir apenas o que já reconhece(6), o que já cabe num mapa conhecido(7) e tudo o que escapa a isso é logo sentido como ruído(8), como erro(9), como ameaça.(10)

Esta resistência instala-se como uma espécie de filtro invisível(11), e quando estamos perante a dissonância, atrito, fricção na relação(12) há uma parte de nós que se contrai(13), que teme perder o chão.(14)

A dissonância, nesse sentido, não é só um som fora do acorde(15), é o espaço onde o ouvido pode reaprender a existir.(16)

É preciso suportar esse desconforto inicial(17), essa recusa do corpo(18), até que o som estranho se torne presença(19) não porque o dominámos(20), mas porque deixámos de o temer.(21)

A dissonância começa a revelar a sua delicadeza(22). Ela não é ruído nem conflito(23). É uma espécie de defesa íntima(24) do que ainda não foi ouvido com profundidade.(25)

O nosso interior resiste(26), não por teimosia(27), mas por fidelidade a uma escuta mais antiga(28), uma escuta que ainda não se deixou adestrar(29) por causa do hábito de compreender.(30)

Exercício 1
Releia: "uma escuta que ainda não se deixou adestrar por causa do hábito de compreender".

Eu irei explicar que este hábito de querer compreender os OUTROS é um ERRO nas relações humanas.(31)

Quando estamos no meio de uma não sintonia na relação(32):
Primeiro passo: cale-se por favor!(33)

É nesse momento que precisamos olhar para dentro de nós.(34)

O modo de escuta domesticado(35) quer concluir as desavenças(36), fugindo(37), ou criando mais barreiras ao OUTRO(38). A fricção continua a virar campo de batalha.(39)

Isso é o que entendo por um ouvir que foi domesticado.(40)

Um ouvir domesticado é aquele que não suporta a fricção(41), que sente o desacordo como ameaça.(42)

Em vez de deixar o som do OUTRO ressoar(43) e talvez transformar algo dentro(44), a pessoa corre a proteger-se(45), fecha-se(46), levanta muros(47), ou tenta resolver tudo depressa(48), para que o desconforto desapareça.(49)

Exercício 2
Releia: "a pessoa fecha-se, levanta muros"

Aqui reside a imaturidade(50). Uma escuta domesticada(51), uma escuta que se fecha.(52)

A fricção serve para nos auto-analisarmos.(53)

As pessoas em fricção(54), em dissonância têm os mesmos hábitos domesticados(55): partilham a fricção com os colegas:(56)
- "o que ela me fez",
- "o que ele me fez",
- "o que ela disse",
- "o que ele disse".

O ouvido foi ensinado(57) a procurar harmonia a qualquer preço(58), como se a diferença fosse sempre um problema a corrigir.(59)

Mas quando o ouvido é livre(60), ele suporta o atrito(61), escuta mesmo o que não entende(62), deixa a dissonância vibrar(63) até encontrar outro tipo de sentido.(64)

Não o sentido lógico(65), mas o sentido vivo(66), que nasce do encontro.(67)

Quando tenho um problema de sintonia com alguém(68), calo-me(69) para nascer o encontro(70), para me APROXIMAR.(71)

Começo um PROCESSO(72) de análise dentro do meu interior(73): uma auto-análise.(74)

Se querem respostas rápidas(75), não as dou(76). Medito sobre o assunto.(77)

Quando a escuta está domesticada(78), ela transforma o atrito em ameaça(79) e a dissonância, que poderia ser espaço de descoberta(80), vira trincheira(81), campo de batalha.(82)

Repare que a dissonância, fricção numa relação(83), para nós Movimento de Motivação e Auto-Ajuda é descoberta daquilo que me afeta(84). Só esta descoberta mostra o que precisa ser trabalhado em mim.(85)

A fricção revela onde o OUTRO toca uma parte minha que ainda não sabe respirar.(86)

Eu sou sufocado pelo OUTRO(87). Este sufocamento para nós é um ALERTA, do que preciso mudar em mim(88) 

Se a escuta for selvagem, curiosa, permeável, sem medo de se desarrumar(89), então cada conflito(90) é uma dobra para aprendizagem.(91)

O que se mostra como tensão(92) é, afinal, o ponto onde o eu ainda se defende da própria transformação.(93)

A fricção é lugar onde algo se abre(94), onde o som acontece.(95)

A dissonância gera uma interrogação interior:(96)
- o que devo fazer?(97)
- como devo aproximar-me?(98)

É aqui que começam os micro rituais de aproximação(99), nos instantes(100) em que, em vez de reagir(101), apenas se respira(102) e se permanece junto à fricção.(103)

Calo-me num primeiro instante(104) e começo de imediato um PROCESSO(105) de questionamento dentro de mim:(106)
- O que posso fazer?(107)
- Como não criar mais atrito?(108)
- Vou ouvir(109), vou fazer questões dentro de mim para me compreender.(110)

O estudo SECRETO dos micro rituais de aproximação é um TREINO da escuta para criar uma PONTE com os OUTROS.(111)

Uma escuta que não procura resolver o OUTRO(112), mas permanecer com ele(113), na vibração entre o que eu percebo e não percebo no OUTRO.(114)

Não quero mudar o OUTRO(115), queremos apenas perceber a vibração que o OUTRO provoca em nós(116) e tentar compreender porque me sinto afetado?(117)

Esqueça o OUTRO para mudança(118). É o meu eu que precisa de mudar(119). O OUTRO é apenas o meio para eu reconhecer em mim o que ainda não está trabalhado.(120)

Ao escrever este texto vejo tanto que preciso explicar(121). Tanto que fica por dizer.(122)

Quando escutamos o OUTRO(123), há sempre uma tensão(124) entre o que quero compreender(125) e o que o som do OUTRO desperta em mim.(126)

E é nesse espaço pequeno(127), imperfeito, vibrante que se pode formar o micro ritual da aproximação.(128)

Escutar para me escutar é como deixar o ruído existir sem o apressar em sentido(129). A dissonância é o sinal de que algo em mim ainda está vivo(130), ainda não assimilado(131), ainda resistente à harmonia fácil.(132)

Eu resisto(133)! E é aqui que se abre todo o mundo de possibilidades(134) e da minha mudança(135). E aqui há beleza.(136)

O SEGREDO jaz não em corrigir a dissonância(137), mas acolhê-la(138) como força de presença(139), o ponto em que o meu interior me desafia(140), recusa a linearidade(141) e me obriga a escutar com o corpo inteiro.(142)

No meio da dissonância eu preciso escutar-me(143). Avaliar as minhas palavras(144), os meus gestos.(145)

A dissonância é um animal selvagem(146), íntimo(147), à espreita de quem tem coragem de escutar sem domesticar.(148)

É preciso que entenda esta noção de domesticação(149)
Um animal domesticado, já não é mais ele(150), mas é a tradução dos cliques que eu dou para ele corresponder automaticamente àquilo que eu quero(151). 

Os cliques são sons curtos produzidos por um pequeno aparelho de treino, conhecido como clicker. Durante o processo de adestramento, o animal aprende a associar esse som a uma ação específica, a uma recompensa ou à confirmação de que executou o comportamento desejado. Com a repetição, o clique deixa de ser apenas um som e passa a funcionar como um sinal que orienta a resposta do animal.

Nesse sentido, pode-se dizer que um animal domesticado já não age exclusivamente segundo seus impulsos naturais. Parte de seu comportamento passa a ser moldado por associações aprendidas, de modo que o clique desencadeia respostas condicionadas. Assim, aquilo que o animal faz após ouvir o clique não decorre apenas de sua vontade espontânea, mas também do processo de aprendizagem que o levou a corresponder automaticamente aos sinais emitidos pelo ser humano.(152)

Tenho aprendido na minha vida a deixar as pessoas serem o que quiserem ser na minha presença(153). E isso é belo, porque posso apreciar o seu ser genuíno(154) sem terem de representar um papel à minha frente.(155)

Esta postura reduz a necessidade do controlo social sobre a interação. Esta ideia pode ser relacionada com a teoria dramatúrgica de Erving Goffman [Sociólogo Canadiano, 1922-1982], segundo a qual os indivíduos tendem a representar papéis sociais perante os outros, procurando gerir as impressões que transmitem.(156)

Quando as pessoas sentem que não precisam de desempenhar um papel específico para serem aceites(157), torna-se mais provável a manifestação de comportamentos mais espontâneos e autênticos(158). Assim, a apreciação do "ser genuíno" corresponde à diminuição das estratégias de representação social descritas por Goffman.(159)

Esta reflexão também encontra eco no pensamento de George Herbert Mead [Filósofo e Psicólogo Social, considerado um dos fundadores do interacionismo simbólico em Sociologia. Norte Americano, 1863-1931], para quem a identidade se constrói através da interação social.(160)

Um ambiente de aceitação favorece a expressão mais livre do "eu" e reduz a pressão para conformar a identidade às expectativas dos outros.(161)

Se as pessoas à minha volta dizem asneiras, não as corrijo.(162)

E na verdade retirei de mim um PROCESSO domesticado(163) - o querer corrigir os outros(164) [um tema que abordaremos exaustivamente].(165)

Esta imagem do animal domesticado como metáfora do que faço com os OUTROS(166) e comigo(167) é fortíssima.(168)

Quando digo que deixo as pessoas serem o que quiserem ser na minha presença(169), toco num dos gestos mais raros e generosos que existem(170) o de não capturar o OUTRO com a minha expectativa.(171)

Essa liberdade é também uma forma de escuta indomada.(172)

Quando não exijo que o OUTRO corresponda(173), abro espaço para o som verdadeiro do seu ser(174), mesmo que esse som nos cause desconforto(175), estranheza, ou até silêncio.(176)

E isso é belo, é profundo e é uma forma de respeitar o OUTRO(177) na sua genuinidade(178). O OUTRO não tem de representar à minha frente.(179)

Repare que coloco sempre o OUTRO numa palavra maiúscula(180), para o classificar no nosso Movimento de Motivação e Auto-Ajuda, como o busílis de toda a nossa narrativa(181). O OUTRO fica sempre da parte de fora da nossa mudança interior(182). Não o queremos mudar(183). Ele é apenas o meio(184) pelo qual eu mudo interiormente(185), mas o seu papel é passivo(186). O OUTRO não sabe que desempenha este papel na história da minha vida.(187)

É o choque com o OUTRO(188), é na fricção, na dissonância com o OUTRO(189), que eu me transformo(190). Porque nesses instantes(191), eu calo-me(192)! E oiço-me.(193)

Questiono-me interiormente:(194)
- "O que poderei fazer?" (195)
- "Porque estou afetado com isto?"(196)

Quando liberto o OUTRO de todas as exigências(197) que poderia fazer sobre ele(198), quando já não o corrijo(199) para se moldar à minha forma(200), mas deixo-o ser como quiser ser(201), é nessa entrega que o encontro se torna real(202), porque já não há manipulação(203), nem defesa(204), há vibração(205), coexistência.(206)

Domesticar(207) é reduzir o OUTRO(208) à minha vontade.(209)

A forma de escuta que desenvolvo(210), é acolher o outro(211) sem o traduzir(212). É permitir que a sua diferença(213) soe em nós(214), mesmo que desarrume.(215)

Ás vezes oiço coisas que não gosto(216). Fico calado(217). Em vez de reagir(218), calo-me(219), medito sobre o assunto(220). "Como me APROXIMAR?"(221)

O meu gesto NÃO é de TROCA(222), e também NÃO é de PERMISSÃO(223).

A frase "permissão ao outro" não faz parte do nosso Movimento de Motivação e de Auto-Ajuda.(224)

Quando digo: "eu permito ao outro"(225) continuo a olhar para o fora de mim(226). E não está correto.(227)

Mas quando digo: "eu permito a mim mesmo"(228), o centro desloca-se(229), já não é sobre o OUTRO(230), é sobre MIM(231).

Eu não quero interferir no OUTRO(232), não quero moldar o OUTRO(233), nem mesmo exigir correspondência(234), porque isso seria relacionar-me em reciprocidade(235). O nosso Movimento é exclusivamente unilateral(236):
Raciocínio 51/200 - Relações horizontais e não verticais: a unilateralidade - parte 1
Raciocínio 52/200 - Relações horizontais e não verticais: a autoresponsabilidade - Parte 2

O OUTRO precisa ser o que for para que eu me adapte. Já falámos sobre isso:(237)
Raciocínio 54/200 - Eu adapto-me ou o outro tem de se adaptar a mim? 

O OUTRO pode ser o que é(238). Não porque eu deixo(239), mas porque eu não me imponho(240) sobre o que vejo.(241)

Precisamos abrir espaço para o OUTRO ser(242), e esse espaço é o que o liberta(243), mas não nos devolve nada necessariamente.(244)

O meu gesto é sempre unilateral(245), generoso(246), quase silencioso(247), não como uma reciprocidade(248), mas como um campo onde o OUTRO pode respirar.(249)

Eu preciso deixar o OUTRO ser(250) para verdadeiramente lidar com o meu interior(251) e tentar perceber em mim:(252)
- "afinal o que me afeta?"(253)

Deixamos então o OUTRO ser o que quiser ser(254). Nessa liberdade, ele pode existir sem máscara(255), sem precisar representar um papel.(256)

Entenda que isto não é uma troca(257). O OUTRO não tem de fazer o mesmo comigo(258) porque aí já estaríamos a falar de reciprocidade(259), e eu não acredito nela.(260)

A reciprocidade exigiria que o OUTRO me ouvisse na mesma frequência(261), usasse o mesmo tom(262). E eu não posso exigir nada do OUTRO(263), mas posso exigir de mim.(264)

O OUTRO não tem de estar na minha frequência(265), nem em sintonia comigo(266). E aqui vai outro SEGREDO: ele ou ela, este OUTRO não tem de estar em sintonia comigo(267), porque ele ou ela, são eles e eles ou elas, são os OUTROS, são o fora de mim(268). Eles não têm de estar em sintonia comigo, mas eu sim tenho de estar em sintonia com eles(269). E aqui estamos perante a revelação do SEGREDO(270). O que eu quero desenvolver em mim são estes micro rituais de aproximação(271): "como posso aproximar-me mais"?(272)

Raciocínio 80/200 - Encontre falhas e destrua a sua relação

Não me preocupa se os gestos do OUTRO são dissonantes(273), ou querem provocar fricção(274). O que me preocupa mesmo são os meus gestos que podem provocar e aumentar essa dissonância(275). Eu quero provocar mais APROXIMAÇÃO(276). Quero que todos os meus gestos sejam gestos de APROXIMAÇÃO.(277)

Apenas no Livro 7 irei tratar disto em profundidade quando formos aprender a DESCER:(278)
Raciocínio 112/200 - Aprendendo a descer, Não há pessoas difíceis, há um eu difícil (parte 1)
Raciocínio 113/200 - Aprendendo a descer: Todos os dias, são para descer (Parte 2)
Raciocínio 114/200 - Aprendendo a descer: encontros inesperados (parte 3)
Raciocínio 115/200 - Aprendendo a descer: Fico estupefacto com o que encontrei (parte 4)
Raciocínio 116/200 - Aprendendo a descer: Bem vindo ao fundo (parte 5)
Raciocínio 117/200 - Aprendendo a descer: Precisa desencarcerar pessoas presas em si (parte 6)
Raciocínio 118/200 - Aprendendo a descer: Preciso desencarcerar pessoas - continuação (parte 7)
Raciocínio 119/200 - Aprendendo a descer: os vilões da nossa vida - Tudo é um conflito (parte 8)
Raciocínio 120/200 - Aprendendo a descer: os vilões da nossa vida - Tudo é um conflito - Ele ou ela está a irritar-me (parte 9)
Raciocínio 121/200 - Aprendendo a descer: Retire os vilões e as vilãs das suas narrativas (parte 10)
Raciocínio 122/200 - Aprendendo a descer: Mantenha o equilíbrio, não faça inimigos. Aprenda a desenvolver a TERNURA (parte 11)
Raciocínio 123/200 - Aprendendo a descer: Mantenha o equilíbrio - Não há razão! Há relação (parte 12)
Raciocínio 124/200 - Aprendendo a descer: Porque a TERNURA é o caminho

Se o OUTRO está desafinado(279), eu irei ao seu encontro(280) tentando apanhar o tom(281). Eu não o vou obrigar a entrar no tom.(282)

O que tenho vindo a desenhar é um mapa para desaprender a escutar.(283)
A expressão "desaprender a escutar" não significa deixar de ouvir(284). Significa desaprender certos hábitos de escuta que adquirimos(285) e que limitam a nossa capacidade de encontro com o OUTRO(286), e connosco próprios(287)

Desaprender o quê na escuta? É necessário desaprender:(288)
- A necessidade de querer compreender tudo.(289)
Na minha relação amorosa [mais de 15 anos de relação] há mais de mil coisas que não compreendo e preciso deixar a outra pessoa livre(290) [ainda é um tema complexo para lhe explicar neste momento](291)
- A tendência para transformar a diferença em ameaça.(292)
- O hábito de procurar resolver, corrigir o outro.(293)
- A fuga ao desconforto da dissonância e do conflito.(294)
- A escuta defensiva que se fecha quando encontra algo contraditório.(295)

Desaprender, aqui, é libertar a escuta dos automatismos(296) que a tornaram "domesticada".(297)
É recuperar uma capacidade mais aberta(298), curiosa diante da diferença.(299)

Exemplo:(300)
Eu penso A
O outro pensa B
Eu oiço A

Ouvir não visa compreender B(301). Visa apenas ouvir o outro ponto de vista e ponto final.(302)
Este ponto final que aqui coloco, é para esclarecer que ouvir B não serve para eu validar se B está certo ou errado(303), porque eu não procuro a correção do OUTRO(304) - não quero razão, eu quero RELAÇÃO.(305)

Raciocínio 20/200 - A Paz Interior o motor da vida (3/3): a regra do silêncio, deixando de ter razão
Raciocínio 123/200 - Aprendendo a descer: Mantenha o equilíbrio - Não há razão! Há relação (parte 12)


NÃO QUERO COMPREENDER o mundo visto por B, quero apenas ouvir(306)
Há um deslocamento na forma da nossa escuta(307). O objetivo NÃO É CHEGAR A UM ACORDO, por isso digo "não quero compreender"(308), isso seria defender a reciprocidade(309), um dos maiores males das relações humanas(310) - a luta das perspetivas.(311)

"Ouvir B" não é para defender A nem para corrigir B(312). É apenas ouvir B, e não preciso de o compreender.(313)

O que está em causa neste deslocamento(314) não é apenas uma nova forma de dialogar(315). É uma transformação radical da própria escuta.(316)

Habitualmente, ouvimos a partir do centro de nós mesmos(317). Isto é aquilo que chamo de um ouvir domesticado(318). Coloco-me no centro e depois avalio se concordo ou discordo(319). Esta perspetiva é puro AFASTAMENTO da relação(320). Eu quero APROXIMAÇÃO.(321)

Então, eu deixo de estar no CENTRO(322), e coloco o OUTRO no CENTRO da minha atenção(323), através da TERNURA que lhe dou(324). Isto é um SEGREDO.(325)

Você nem imagina a quantidade de pessoas que vêm até mim(326). Passa de boca em boca(327), a minha disponibilidade em AJUDAR(328), a minha TERNURA(329), o MIMO dos meus gestos(330) que promovem APROXIMAÇÃO.(331)

Mesmo quando permanecemos em silêncio(332), a nossa mente continua ativa(333): compara, avalia, concorda, discorda, interpreta, prepara respostas(334). O OUTRO fala, mas a sua voz entra num espaço já ocupado pelas nossas conclusões.(335)

Escutamos para situar o que ouvimos dentro do nosso mapa do mundo(336). É por isso que tantas conversas se tornam confrontos(337).

Mesmo quando não existe agressividade(338), existe uma disputa entre perspetivas(339). Cada pessoa tenta preservar a coerência da sua visão(340). Isto para nós Movimento de Motivação e Auto-Ajuda é um ERRO na relação, em todas as relações.(341).

A conversa transforma-se numa negociação permanente entre mundos diferentes. Se eu falo com alguém que pensa A e eu penso B, como promover a APROXIMAÇÃO?(342)

A disputa de perspetivas raramente é inocente(343). Na maioria das vezes significa: "Que razões tens para eu poder avaliar se estás certo ou errado?"(344)

Ou ainda:
"Explica-te para que eu possa encontrar o ponto onde discordo."(345)

A pergunta parece aberta(346), mas continua a servir o tribunal da perspetiva própria, e isto é um erro.(347)

Entendendo o DESLOCAMENTO que precisamos fazer(348)
O deslocamento acontece quando deixamos de procurar justificações(349) e começamos apenas  a ouvir.(350)

Já não queremos saber se B está certo.(351)
Queremos apenas ouvir B.(352)

A diferença é imensa.(353)

Quando procuro justificações(354), permaneço no plano das perspetivas certas ou erradas(355), o que acho que está certo(356), se concordo ou não concordo.(357)

Quando oiço apenas, aproximamo-nos da experiência de B(358). As perspetivas não nascem do vazio(359). Por detrás de cada conclusão existe uma história(360), uma forma de ver a vida(361) que não me interessa nada classificar(362) quando me relaciono com as outras pessoas.(363)

Por detrás de cada crença existe uma paisagem(364). Por detrás de cada convicção existe um modo singular de ter habitado a vida.(365)

Dizer "quero ouvir B" passa então a significar:(366)
"Quero conhecer o caminho que te trouxe até aí."(367)

A atenção desloca-se da opinião do OUTRO para a génese da opinião(368).
Para a experiência que tornou essa posição possível.(369)

Nesse momento, algo muito importante acontece. Desaparece a necessidade de discordar.(370)

NÃO COMPREENDER, não exige adesão.(371)
Posso ouvir uma perspetiva sem a tornar minha(372). Posso reconhecer a coerência interna de um mundo sem precisar de o habitar(373). É por isso que usei a expressão "não compreender".(374)

A escuta deixa de ser um mecanismo de validação(375) e transforma-se no meu gesto de VISITAR a opinião do OUTRO(376), um gesto de APROXIMAÇÃO(377). De criar uma PONTE de contato(378), para deixar o OUTRO atravessar até mim(379). Eu não vou criar as barreiras.(380)

O OUTRO pode criar as barreiras que quiser(381), isso não me interessa absolutamente(382), porque esse é o proceder do OUTRO(383). Interessa-me sim, as PONTES que eu crio(384). Os gestos de APROXIMAÇÃO que eu desencadeio através de mim(385) para criar sempre APROXIMAÇÃO em TODAS as minhas relações.(386)

Visitar é uma palavra fundamental, compreenda este SEGREDO(387)
Quando visitamos a casa do OUTRO não a remodelamos, porque a casa não é nossa(388). Não mudamos a disposição dos móveis, porque é a casa do OUTRO e não é a nossa casa(389). Vamos pelos corredores; observamos as janelas(390); percebemos a luz(391); tentamos sentir como é viver naquele lugar(392), mas o nosso gesto é apenas de visita.(393)

O que significa VISITAR o OUTRO(394) para percebermos a noção de que NÃO quero COMPREENDER o OUTRO:(395)
Quando digo que não quero compreender o OUTRO(396), eu preciso que entenda que sempre que o quisermos compreender iremos entrar no campo da validação(397). E se entramos neste campo, vamos muitas vezes não compreender certos modos de pensar do OUTRO(398), e entramos na luta das perspetivas(399) que não pertence ao Movimento de Motivação e Auto-Ajuda.(400)

Nós não queremos compreender o OUTRO(401), queremos apenas visitar a sua compreensão(402) sobre determinada coisa(403). Podemos perguntar sobre algo(404), mas não queremos explicações(405), nem perceber em profundidade - isto é um SEGREDO.(406)
 
Visitar B(407) torna-se uma forma de entrar TEMPORARIAMENTE(408) no território interior do OUTRO.(409)

Não para o conquistar.(410)
Não para o corrigir.(411)
Não para o converter à minha forma de ver.(412)

Mas para o ouvir(413), e desse modo criar a PONTE(414). Este Movimento(415) exige uma rara suspensão(416) do meu eu(417). Não significa abandonar as minhas próprias convicções(418). Significa apenas colocá-las entre parênteses(419) durante algum tempo(420) [o tempo em que visito o OUTRO](421). O suficiente para que a realidade do OUTRO apareça(422) sem que eu a corrija.(423)

A maioria das relações humanas sofre precisamente da incapacidade de realizar esta suspensão.(424)

As pessoas escutam para responder.(425)
Escutam para comparar.(426)
Escutam para encontrar semelhanças ou diferenças.(427)
Escutam para decidir se estão ou não de acordo.(428)

Muito raramente escutam para ouvir somente.(429)
E ouvir é diferente de avaliar(430). Porque só oiço!(431)
Avaliar procura uma medida.(432)
Ouvir apenas cria a minha presença(433), mantém a minha PONTE.(434)

Quando oiço apenas o OUTRO, ele ou ela, deixam de ser um problema com a sua forma diferente de pensar da minha(435), e este meu gesto de apenas ouvir(436), torna-se num micro ritual de aproximação.(437)

Não encontramos apenas ideias diferentes.(438)
Encontramos modos diferentes de existir.(439)
Histórias diferentes de ver a vida.(440)

Esta é a possibilidade de um ouvir que não exige vitória(441), porque limito-me a ouvir.(442)

Não há aqui uma procura de razão(443) para a poder refutar(444). A refutação não faz parte do Movimento de Motivação e Auto-Ajuda.(445)

Compreender o OUTRO não significa concordar com ele(446)
A escuta amadurecida aceita a possibilidade de que ouvir não tem como finalidade a convergência(447). Tem como finalidade o ENCONTRO:(448)

Raciocínio 37/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 10): "Entre em sintonia" - 5ª dimensão

O ouvir deixa de ser uma ferramenta para reduzir a diferença(449) [o que todas as relações fazem](450) e passa a ser uma forma de permanecer junto da pessoa.(451)

A diferença continua a existir(452), mas deixa de ser tratada como um problema.(453)

Torna-se uma oportunidade de conhecer o OUTRO(454), principalmente conhecer a nós próprios(455). Porque no momento em que surge a divergência(456): eu calo-me(457)! Ao fazê-lo começo a descobrir em mim mesmo as arestas que preciso limar em mim(458), para não entrar em debate de palavras.(459) 

Vou agora distinguir vários tipos de escutas(460) e vou classificar cada uma delas em:(461)
- Erro das relações(462)
- A nossa escolha [do Movimento de Motivação e Auto-Ajuda](463)

A escuta domesticada [Erro das relações](464)
É uma forma de escutar condicionada pelo hábito(465), pelas expectativas(466) e pela necessidade de compreender(467), ou pior, pela necessidade de querer compreender de forma rápida.(468)
- Procura reduzir a diferença(469), não aceita a diferença(470) e entra em debate de palavras;(471)
- Esta escuta quer resolver o conflito(472) e proteger-se daquilo que desestabiliza(473). Para nós Movimento de Motivação e Auto-Ajuda o oposto é o verdadeiro: permanecer na tensão do encontro(474). Este é o propósito - permanecer, calar-me, e ouvir o OUTRO(475). Não para debater;(476)
- A escuta domesticada tende a fechar-se(477), não é aberta ao OUTRO;(478)
- Transforma a divergência em confronto.(479)

Escuta mais antiga [a nossa escolha](480)
É uma escuta primordial(481), anterior aos condicionamentos culturais(482) e aos hábitos interpretativos(483). Uma capacidade profunda de receber o mundo e o outro(484) sem a necessidade de classificar, explicar ou controlar.(485)

Escuta que não se deixa adestrar [a nossa escolha](486)
É uma escuta que resiste a ser moldada apenas pelas convenções do entendimento(487). Mantém viva a abertura ao mistério(488), ao inesperado(489) e ao que ainda não possui significado claro(490). E aqui reside mais um SEGREDO. Não procuro significados claros(491). Não preciso perceber o OUTRO(492). Não preciso de exigir que se explique(493). Deixo-o falar quando quiser falar(494). A minha ABERTURA precisa devolver TERNURA(495). Todo este parágrafo é SEGREDO.(496) 

Escuta que se fecha [Erro das relações](497)
É uma escuta defensiva(498). Quando encontra desconforto, diferença ou contradição, interrompe a abertura ao outro(499). Em vez de acolher, ergue barreiras(500) e protege as suas certezas(501). Tudo é barreira(502), tudo é motivo de conflito(503) porque não se concorda com o OUTRO.(504) 

Escuta livre [a nossa escolha](505)
É a capacidade de permanecer presente perante aquilo que não compreendemos(506). Permanece perante a tensão(507), suporta o atrito(508) e não exige respostas(509). Confia que o sentido pode emergir mais tarde se o OUTRO assim o entender(510). Não vou questionar o OUTRO(511), vou deixá-lo LIVRE.(512)

Escuta selvagem [a nossa escolha](513)
É uma escuta indomada, curiosa e viva(514). Não teme ser transformada pelo encontro(515). Permite que a diferença a afete(516), aceita o risco da desordem interior(517) e vê o conflito como possibilidade de aprendizagem(518). É uma escuta movida pelo desejo genuíno de descobrir(519), e não pela necessidade de avaliar(520). É uma escuta sem medo de se desarrumar(521). É uma escuta disponível para ser alterada pelo encontro(522). Aceita que ouvir o OUTRO pode implicar rever crenças, identidades ou formas habituais de pensar.(523)

Escuta treinada pelos micro rituais de aproximação [a nossa escolha](524)
É uma escuta cultivada através de pequenos gestos de atenção, presença e disponibilidade(525). Não é apenas uma capacidade espontânea(526); é uma prática que se desenvolve(527). É uma escuta que não procura resolver o outro(528). Eu não vou avaliar o OUTRO(529). Não vou reduzir o OUTRO à minha forma de ver(530). Nem se quer vou falar da minha forma de ver [outro SEGREDO](531). Isso é território meu, interno, só meu.(532)
[Na minha relação amorosa eu não falo da minha forma de ver] isto é um SEGREDO.(533)
[Um outro SEGREDO: na minha relação a outra pessoa não conhece estes meus princípios(534), porque o meu Movimento é sempre unilateral](535) - Isto será explicado bem mais à frente.(536)

É uma escuta que RENUNCIA à tentação de corrigir, interpretar ou consertar a experiência alheia(537). O seu objetivo é acompanhar, não controlar(538). O objetivo é deixar o OUTRO na sua forma de ver.(539)

Eu ao escutar permaneço com o OUTRO.(540)

Agora, entenda o seguinte: "então mas eu não posso manifestar um ponto de vista diferente?"(541)
Pode, claro!(542) Mas se ao apresentar B e o OUTRO pensa A, e se o OUTRO não tiver interesse em perceber B [que é o seu ponto de vista], então o nosso discurso termina nesse momento(543), e ficamos apenas a ouvir.(544) 

Escutar para me escutar [a nossa escolha](545)
É usar o ENCONTRO com o OUTRO como OPORTUNIDADE para observar aquilo que desperta em mim(546). A atenção deixa de estar apenas no exterior e inclui as minhas próprias reações, emoções e resistências(547). É a capacidade de receber a experiência do OUTRO sem a converter nos meus próprios códigos, interpretações ou narrativas.(548)

Desaprender a escuta habitual [a nossa escolha](549)
É abandonar a necessidade de transformar o OUTRO em algo para eu compreender. Outro SEGREDO.(550)

Esta é uma mudança radical na forma como entendemos a escuta(551). "Desaprender a escuta habitual" não significa deixar de ouvir(552), mas abandonar certos hábitos profundamente enraizados(553). Habitualmente, escutamos para identificar, classificar, interpretar, responder ou encaixar aquilo que o outro diz em categorias que já conhecemos: concordo, discordo, não vejo dessa forma - isto são as categorias domesticadas.(554)

E o ERRO está em reduzir a alteridade do OUTRO(555) às nossas próprias referências(556). Traduzimos a experiência alheia para a nossa linguagem, os nossos conceitos, a nossa história(557). Embora isso possa facilitar a comunicação(558), apaga aquilo que no OUTRO é singular, irredutível ou até incompreensível.(559)

Neste sentido, o OUTRO não é apenas uma pessoa diferente de mim(560). É aquilo que deve exceder as minhas categorias de entendimento. Isto é outro SEGREDO.(561)

Exercício 2
Releia a frase anterior.

É uma presença que NÃO TEM de ser capturada pelas minhas interpretações(562). O OUTRO é o FORA de mim(563). E eu apenas posso lidar com o dentro de mim.(564)

O OUTRO contém sempre uma zona secreta, não necessariamente algo ocultado voluntariamente, mas uma parte que permanece inacessível.(565)

Há experiências, sentimentos, memórias e formas de ser que nunca serão totalmente traduzíveis para quem as escuta. E não têm de ser.(566)

O verdadeiro SEGREDO: a dissonância não é o oposto da harmonia(567), mas é o seu berço.(568)

Temos um longo caminho a percorrer.(569)

Abraço fraterno
Nuno Miguel R. S. Gomes
(Sociólogo e Filósofo)

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