Raciocínio 115/200
Aprendendo a descer: Fico estupefacto com o que encontrei (parte 4)

Motivação para viver, a busca pela felicidade através de um método de esforço cognitivo. O método que usamos é efetuado por etapas graduais. Será o encadeamento destas etapas que nos levará a entender este processo complexo constituído por 200 raciocínios.

Começaremos vários exercícios de motivação. Poderá comentá-los, ou enviar mensagem em privado para o nosso email: Auto.ajuda.mundo@gmail.com

Iremos gradualmente e por raciocínios adquirir conhecimento motivacional. Sugerimos que comece pela 1° raciocínio para poder perceber o encadeamento dos raciocínios que iremos estabelecer, e faça a leitura ao seu ritmo. Basta em cima selecionar "Raciocínios" e 1/200, e depois por 2/200 e assim por diante.
Vamos fazer aqui um resumo de todos os raciocínios que já abordámos:
1/200 - O início de uma caminhada
2/200 - O problema de atribuir significado a pensamentos que não interessam
3/200 - Não permita que o passado exerça poder sobre si
4/200 - Transcenda as limitações do passado
5/200 - A mente e o poder incrível da imaginação
6/200 - Os rituais do imaginário
7/200 - Preferir a "felicidade" à "depressão"
8/200 - Vamos criar um raciocínio produtivo
9/200 - O problema da crença do poder da atração
10/200 - Escolher a felicidade e recusar a infelicidade (Parte 1)
11/200 - A explicação do nosso "segredo"!
12/200 - O problema da Ataraxia
13/200 - A emoção da tristeza
14/200 - Nós somos responsáveis pela maneira como nos sentimos
15/200 - A lei da fé
16/200 - O que fazer com a inveja
17/200 - Quando está tudo escuro e a luz que brilha está bem longe
18/200 - A Paz Interior o motor da vida (1/3): introdução
19/200 - A Paz Interior o motor da vida (2/3): o poder da recordação
20/200 - A Paz Interior o motor da vida (3/3): A regra do silêncio deixando de ter razão
21/200 - Retirar de nós a auto-piedade, auto-rejeição, auto-depreciação, auto-anulação (parte 1)
22/200 - Auto-acusação e Auto-piedade (parte 2)
23/200 - Esclarecimento sobre os "Autos"
24/200 - Tomar consciência dos pensamentos que temos
25/200 - Preferir a FELICIDADE em vez da infelicidade (Parte 2)
26/200 - Não tenha medo de errar
27/200 - Fortaleça a sua estabilidade interior
28/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 1): Introdução
29/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 2):
Projetar potência criadora numa dedicação integral com todos, da mesma forma e continuamente
30/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 3): ofereça presença
31/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 4): "Acolhimento" - 1ª Dimensão
32/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 5): "Acolhimento" (continuação)
33/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 6): "Apoio" - 2ª dimensão
34/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 7): "Apoio" - 2ª dimensão (continuação)
35/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 8): "Projeção" - 3ª dimensão
36/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 9): "Valorizar" - 4ª dimensão
37/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 10): "Entrar em sintonia" - 5ª dimensão
38/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 11): "ilumine o outro" - 6ª dimensão
39/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 12): "Como definir o Campo de Ação e o Poder de saber o nome" - 7ª dimensão
40/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 13): "Altere o seu olhar" - 8ª dimensão

41/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégias (Parte 14): "dar espaço ao outro" - 9ª dimensão
42/200 - Como ter potência criadora - 1 estratégia: IVA (imposto de valor acrescentado)
43/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (parte 1/4)
44/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): Um segredo que revelamos - A criação das redes de pequenas maledicências no trabalho (parte 2/4)
45/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): A dificuldade de tornar um assunto em não assunto (3/4)
46/200 - Como ter potência criadora - 2 estratégia: O que é um não assunto (continuação): na prática o que deixar de fazer (parte 4/4)
47/200 - Como ter potência criadora - 3 estratégia: Não chame os outros à atenção
48/200 - Como ter potência criadora - 4 estratégia: Cale-se por favor!
49/200 - Como ter potência criadora - 5 estratégia: A história de Tolstói (uma reflexão)
50/200 - Como ter potência criadora: Finalmente - Os miminhos
51/200 - Relações horizontais e não verticais: a unilateralidade - parte 1
52/200 - Relações horizontais e não verticais: a autoresponsabilidade - parte 2
53/200 - O silêncio estúpido
54/200 - Eu adapto-me ou o outro tem de se adaptar a mim?
55/200 - Não compre guerras. O problema da conspiração
56/200 - A teoria dos Habitats: não floresça em microclimas
57/200 - O desconforto: o nosso campo de ação (parte 1)
58/200 - O desconforto: os contra-vontades (parte 2)
59/200 - Um jogo de energias - escolher ou acolher?
60/200 - Como atrair tudo até si
61/200 - Porque não vendemos nada e o nosso experimento social é gratuito - Parte 1
62/200 - Porque não vendemos nada e o nosso experimento social é gratuito - Parte 2 - O busílis
63/200 - Ação ou reação - A peça teatral, dão-nos um guião e escolhemos outro papel
64/200 - Um amor raro que faz relações durarem anos - Não precisamos que nos peçam desculpa
65/200 - Dance nas suas relações sem impor coreografia
66/200 - Não chame ninguém a atenção (parte 2): uma revolução nos relacionamentos - espalhe flores
67/200 - Quando os outros endurecem o semblante: a ponte caída
68/200 - O mimo como forma de resistência contra o endurecimento do mundo: use a cor que tiver
69/200 - Um experimento social de acolhimento: não escolhemos mas acolhemos
70/200 - A solidão e o mundo das conexões: a porta enferrujada
71/200 - Mais vale só do que mal acompanhado: e se este ditado estiver incorreto?
72/200 - Solidão, Solitude e Solícito
73/200 - Os déspotas do nosso interior
74/200 - Conspiração: As vidas diminuídas (Parte 2)
75/200 - As minhas ações estão a construir uma melhor pessoa em mim?
76/200 - Somos amorais com os outros: o poder da agulha
77/200 - A dissonância é o lugar do encontro comigo mesmo: um tema secreto
78/200 - Diz o ditado popular: Toda a ação gera uma reação: e se em vez de reagir, agirmos?
79/200 - Presenças invisíveis, sem valor, pessoas descartáveis
80/200 - Encontre falhas e destrua a sua relação
81/200 - Uma reflexão SECRETA - O Mestre das nossas vidas: É no encontro com o outro que se dá o deslumbre de quem somos
82/200 - O Mestre dos Mestres: O lugar secreto
83/200 - O Mestre dos Mestres: Um tempo SECRETO
84/200 - O Mestre dos Mestres: deixe o riso brotar do seu interior
85/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação
86/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - um yoga diferente
87/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - a pausa-silêncio transforma-se no par ternura-silêncio
88/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - dois pares distintos: a ternura-silêncio e a ausência-silêncio
89/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - dois pares distintos: micro-sorriso e o semblante-fechado
90/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - O espelho-secreto
91/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - O ritual dentro de mim
92/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - O ritual fora de mim
93/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - O ritual fora e o ritual dentro de nós
94/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Conversão da vontade
95/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar (parte 1)
96/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar: casos de dissonância (parte 2)
97/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar: a dissonância como alerta do que se passa dentro de mim
98/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar: a dissonância como resistência do meu interior: o portal
99/200 - Um estudo SECRETO: Os micro rituais de aproximação - Escutar para me escutar: a dissonância como resistência do meu interior: um ouvir domesticado
100/200 - Antes de Reagir, Ajo: Não vou reagir - os mantras
101/200 - Antes de Reagir, Ajo: Só queixas
102/200 - Antes de Reagir, Ajo: Relações de proximidade - o antídoto
103/200 - Antes de Reagir, Ajo: Desabafar: não! Como aliviar o peso das emoções
104/200 - Antes de Reagir, Ajo: O arquivo da emoção e o arquivo da razão
105/200 - Antes de Reagir, Ajo: Sofismas emocionais: o encarceramento da emoção
106/200 - Os rituais do imaginário - parte 2: Não somos o que sabemos, somos o que estamos dispostos a aprender
107/200 - Os rituais do imaginário (parte 3): inteligência emocional e espiritualidades
108/200 - Antes de Reagir, Ajo: Chamam-me a atenção
109/200 - Antes de Reagir, Ajo: Chamam-me a atenção - a ponte que não se quebra
110/200 - Antes de Reagir, Ajo: Chamam-me à atenção - ver em mim o que ainda resiste
111/200 - Antes de Reagir, Ajo: O disco riscado das relações
112/200 - Aprendendo a descer: Não há pessoas difíceis, há um eu difícil (parte 1)
113/200 - Aprendendo a descer: Todos os dias, são para descer (Parte 2)
114/200 - Aprendendo a descer: encontros inesperados (parte 3) 

Hoje iremos analisar o nosso Raciocínio 115/200 - Aprendendo a descer: Fico estupefacto com o que encontrei (parte 4)

Temos caminhado por uma encosta que se encontra sempre descer(1). E eu gostaria de ir consigo mais a baixo(2). Mas antes de continuarmos a descer, penso que será melhor falar de quem vive em cima(3) e de quem vive a sua vida sempre a caminhar mais e mais para cima.(4)

Do alto, quando olhamos para baixo, pouco percebemos do que realmente acontece isso é um facto(5). Se estamos no avião não conseguimos perceber os gestos dos outros que estão lá em baixo.(6)

É curioso como, na sociedade, quase todos desejam subir(7). Faz-se de tudo para escalar posições, títulos, prestígio(8). A subida é celebrada como triunfo, como alvo a atingir(9). E, não por acaso, muitas tradições espirituais também falam em ascender, alcançar o cume, tocar o ponto mais elevado.(10)

Quem está no topo vê com mais alcance(11). De cima, os outros estão sempre mais abaixo nunca ao mesmo nível(12). A vida de quem vive lá em cima é grandiosa(13). Do alto, o horizonte é largo, o vento é mais limpo, a paisagem estende-se(14). Quem alcança o topo sente o triunfo.(15)

É verdade, quem está no topo vê mais longe(16). De cima, o alcance do olhar é maior(17), e não há por que negar que a perspetiva se amplia(18). Lá em cima, o horizonte abre-se como um campo vasto, o ar torna-se mais leve, o mundo parece caber inteiro no meu olhar.(19)

A vida de quem vive no alto pode, sim, ser grandiosa porque grandeza, às vezes, é simplesmente a coragem de subir.(20)

E subir não é fácil.(21)

Por trás da vista limpa, há um caminho que poucos conhecem(22). As subidas são íngremes, solitárias e muitas vezes incompreendidas(23). Quem está em cima não caiu ali por acaso, escalou, segurou-se quando faltou apoio, avançou quando o cansaço dizia para parar(24). Há mérito em chegar ao topo(25), mérito que se vê pouco porque quem está lá não costuma carregar faixas nem triunfos estampados no peito.(26)

Sim, de cima os outros parecem estar mais abaixo(27). Não é arrogância em si, é apenas o efeito natural da diferença de altura(28). E muitas vezes quem está lá em cima não escolheu olhar de cima para baixo(29) apenas não tem outra direção possível.(30)

Se a subida exige afastamento, o topo exige ainda mais(31). É um ponto onde poucos chegam e, por isso, poucos compreendem.(32)

Além disso, estar no alto não significa ignorar o que está em baixo(33). Muitas pessoas que chegam ao topo carregam consigo a memória de cada passo, cada erro, cada medo.(34)

As relações, vistas de cima, perdem textura(35). Tornam-se pontos ao longe(36). A proximidade exige descida(37), e descer é algo que quase ninguém está disposto a fazer quando passou a vida inteira a subir.(38)

Ao falar com um amigo falei-lhe da descida(39). Ele vive para a subida.(40)

No cume, o tempo tem outro ritmo(41). Enquanto lá em baixo a vida pulsa, desordenada e viva(42), lá em cima tudo parece suspenso(43). A pessoa começa a confundir imobilidade com estabilidade(44), e distância com clareza(45). Acredita que vê mais(46), quando na verdade vê menos(47) porque quem está muito acima deixa de perceber aquilo que só é visível ao nível dos olhos(48); aquilo que só se sente quando se está dentro, e não por cima.(49)

E, ainda assim, muitos vivem agarrados ao alto como se fosse o único lugar possível(50). Temem a descida como se descer fosse perder(51), quando é recuperar.(52)

Viver lá em cima mantém a pessoa protegida(53), mas também a mantém distante(54). A vida torna-se uma espécie de miradouro permanente: bela, ampla, mas incapaz de ser tocada.(55)

Viver no topo é viver com vista para tudo(56), mas contato com nada.(57)

Mas descer, descer de si mesmo(58), descer das ilusões(59), descer da altura que nos separa(60) é o caminho de quem realmente deseja ver.(61)

É perto do chão, que começamos a ver coisas que antes estavam escondidas pela distância.(62)

À medida que avançamos, percebemos que o caminho não é uma peregrinação para fora(63), mas um retorno silencioso para dentro.(64)

Atravessamos clareiras onde o vento quase não passa, corredores de sombra que parecem sussurrar o que tentámos ignorar durante anos.(65)

A cada passo, uma porta que não sabíamos ter fechado aparece diante de nós(66), velha, empenada, como se tivesse esperado todo este tempo pela coragem de ser empurrada.(67)

E existem mais portas empenadas do que imagina dentro do nosso interior(68). Enferrujadas pela nossa própria dureza de não querer tocar.(69)

Compreenda que é no atrito com o OUTRO que eu posso ver de perto essa porta empenada.(70)

E, quando o OUTRO encosta nessa porta(71), às vezes sem querer, ouvimos o rangido que evitávamos há anos(72). Um som áspero, incómodo, quase sempre confundido com ameaça.(73)

Tenho a certeza que a palavra ameaça é para si uma palavra reconhecida.(74)

Não porque a vida tenha sido cruel(75), mas porque aprendemos cedo demais a confundir qualquer Movimento em direção às nossas vulnerabilidades como perigo.(76)

É fácil dizermos que "ela fez-me isto" ou "ele fez-me aquilo".(77)

Chamamos de ameaça aquilo que, muitas vezes, é apenas o toque delicado sobre uma ferida antiga.(78)

A ameaça, no fundo, é só o eco do que ainda não entendemos(79). O reflexo distorcido de algo que nos pede coragem para tratarmos em nós.(80)

Um aviso do corpo dizendo: "aqui dói, mas aqui também há algo que precisa ser libertado."(81)

E talvez seja por isso que certas presenças nos inquietam tanto.(82)


Exercício 1

Releia milhares de vezes a frase anterior.


Não é o que dizem, nem o que fazem, é precisamente o que despertam em nós.


É como se apontassem para a porta empenada que evitamos olhar, e, sem pedir licença, nos mostrassem o pó acumulado embaixo do tapete da consciência.


Reconhecer a palavra ameaça é reconhecer também que há algo em nós pedindo passagem.


O verdadeiro perigo não está fora, mas em continuar sem abrir o que há tanto tempo nos chama. Ficamos estupefactos com a quantidade de portas empenadas dentro de nós mesmos.


O outro quando toca por mero acaso nessa porta desperta em nós um estremecimento antigo, uma mistura de medo e reconhecimento. É como se, de repente, alguém acendesse a luz naquele corredor que preferíamos manter na penumbra.


Não porque queremos esconder algo do mundo, mas porque ainda não sabíamos como olhar para aquilo sem tremer.


O toque do outro não cria a dor, apenas revela a rachadura.


Mostra o ponto exato onde a madeira cede, onde o tempo deixou marcas, onde empurrar dói, mas liberta.


E é justamente nesse toque inesperado que percebemos o quanto evitamos a nós mesmos.


O quanto caminhamos pela vida desviando do que pulsa, fingindo que está tudo bem enquanto carregamos um conjunto inteiro de portas emperradas que há anos pedem atenção.


Mas o outro, no seu gesto involuntário, funciona como um convite. Entenda que este convite é para a descida. Eu preciso descer para perceber o que me afeta, o que me dói.


Não existem pessoas difíceis, existe um eu que está ferido por isto e por aquilo. Possivelmente você ainda nao sabe lidar com um grito, o que deve fazer?


Primeiro, compreender que o grito nunca começa fora, começa dentro. Porque o outro ao gritar, posso simplesmente parar e pensar o que vou fazer?


Quando alguém grita, é comum que você sinta o corpo contrair, a respiração acelerar, a mente preparar-se para fugir ou atacar. Mas nada disso é contra a pessoa. É contra a memória. É contra a porta empenada que vibra, que range, que treme com o impacto do som.


Então, o que fazer?

Descer.

Sempre descer.

Descer para dentro de mim mesmo e perguntar:

"O que está sendo tocado em mim?"

"O que este grito reacende?"

"Que parte minha ainda se sente pequena, desamparada, vulnerável?"


Porque não existem pessoas difíceis, existem feridas antigas que encontram, no outro, um gatilho.


E este encontro com o outro é caminho.

É a vida mostrando onde ainda há trabalho, onde ainda há madeira partida que precisa ser reparada com presença e coragem.


Lidar com um grito não é silenciá-lo. É escutá-lo sem deixar que ele defina quem você é. É não se confundir com o som. É perceber que o outro grita porque também tem portas empenadas, também tem corredores escuros, também carrega dores que não soube nomear.


Quando reconhecemos isso, algo em mim se desloca, o grito deixa de ser ataque e passa a ser revelação.


Revelação do meu limite, da minha sensibilidade, da minha própria história.


A partir daqui eu posso escolher: não gritar de volta, respirar, não reagir no automático.


Sobretudo, não abandonar a descida. Porque é lá embaixo no terreno das raízes que tudo se inicia.


É ali, onde ninguém vê, onde a luz quase não chega, que se escondem as primeiras fissuras, aquelas que mais tarde se transformam nas portas empenadas que encontramos pelo caminho do nosso interior.


Nas raízes moram os medos que herdamos sem perceber, os silêncios que aprendemos a engolir, os gestos que nos faltaram, as palavras que nunca vieram.


E é justamente por serem tão antigas que parecem inabaláveis, como se tivessem sempre feito parte de nós.


Mas descer até esse subterrâneo íntimo não é castigo. É retorno. É reencontro.


Porque só quando tocamos as raízes é que entendemos o desenho da árvore que nos tornamos.


Só quando percebemos o que alimenta nossos impulsos, nossos receios, nossos padrões, é que podemos, enfim, escolher de forma diferente.


No terreno das raízes, tudo é verdade.

Nada se esconde, nada finge, nada se adorna para parecer melhor do que é.


Ali, somos apenas nós, despidos das defesas, sem a armadura da resistência, sem a máscara das respostas rápidas.


É nesse chão escuro e fértil que nasce a possibilidade de mudança. Por isso a descida é sempre convite e nunca punição.


Perceba que o outro desempenha este papel maravilhoso de Mestre sem o saber. Este outro difícil, mau, com palavras agressivas desperta em mim aquilo que me dói e é aqui que começo um processo de ternura para com ela ou ela.


Ele ou ela, que tantas vezes julgamos como ameaça é justamente quem desperta em mim aquilo que me dói.


E é aqui, exatamente aqui, nesse ponto onde a dor pulsa, que começa um processo inesperado: o da ternura.


Não uma ternura romântica, nem condescendente, mas uma ternura radical.


Uma ternura que nasce do reconhecimento de que, por trás da armadura do outro, também há feridas.

E que por trás da minha reação, também há histórias.


O "outro difícil" aponta para o que ainda não está curado em mim.


Ele toca o ponto cego, acende o corredor escuro, empurra, sem intenção, a porta empenada que eu jurava ter esquecido.


E ao revelar a minha dor, mostra também que eu tenho escolha: posso reagir no impulso, ou posso respirar e acolher o que emerge.


É nesse instante que a ternura se aproxima.

A ternura é apenas uma postura.

É uma escolha deliberada, quase contracorrente.


Porque ele ou ela chega com dureza, com o peito em guerra, com palavras afiadas e eu, ao invés de entrar no mesmo campo de batalha, escolho outra arma: a ternura.


Ele grita. E eu calo-me, não por medo, mas por consciência.


Silencio-me para escutar não apenas o som do grito, mas o que vibra por trás dele.


Silencio-me para não responder de onde dói, mas de onde compreendo.


Fecho os olhos interiormente por um instante e penso: "Como vou responder?"


Porque a resposta não pode vir do impulso, nem da defesa, nem da necessidade de vencer.


Precisa nascer da lucidez. Precisa vir filtrado pela coragem de não devolver o que recebi.


Ternura não como fraqueza, mas como força.


Ternura como quem diz:

"Eu não vou continuar este ciclo."

"Eu não vou permitir que o teu grito decida o tom da minha alma."

"Eu escuto a tua dor, mas não me confundo com ela."


Responder com ternura é um ato revolucionário.


É como colocar água onde esperavam fogo.


É desarmar a guerra no exato ponto em que ela tentava começar.


E é aqui que acontece o milagre silencioso:

quando respondo com ternura, eu quebro o eco do que me machuca.


Eu corto a corrente que, de outro modo, poderia me prender por mais anos, mais vidas, mais portas empenadas.


A ternura aqui é o gesto que diz:

"Aqui comigo, a violência não se multiplica."


E isso começa a transformar tudo, dentro e fora, e aqui inicia-se o processo da descida. Aqui entramos nos vários movimentos dentro do Movimento de Motivação e Auto-Ajuda.


Consigo ver o outro com mais suavidade porque percebo que ele também está ferido, mesmo que se esconda atrás do grito.


O outro, ele ou ela, constituem-se Mestres involuntários. O Mestre, afinal, não é quem ensina com palavras belas. É quem, sem querer, nos revela onde precisamos crescer. É quem desperta em nós a coragem de descer mais fundo, de olhar mais devagar, de compreender mais amplamente.


E talvez seja por isso que os encontros mais difíceis são também os mais transformadores se quisermos descer.


Eles apontam para dentro, e não para fora.

Eles mostram a porta e deixam a abertura por nossa conta.


E sim, seguimos. Sempre para baixo. Sempre mais perto de nós.


Descobrir o interior não tem a leveza de uma subida espiritual; é mais parecido com descer escadas de uma casa antiga, onde de repente o cheiro muda e o ar fica mais pesado.


Como quem se aproxima de um sotão ao contrário, não o que guarda as memórias doces, mas o que arquivámos para não olhar mais.


Há gavetas que evitamos abrir, salas que preferimos atravessar às cegas, e caixas que trancámos com cadeados sem chave, como se a chave tivesse sido acidentalmente perdida.


E continuamos a descer.


O estranho é que, ao chegarmos mais perto dessas zonas subterrâneas, começamos a ouvir murmúrios, passos, arrastar de cadeiras que não lembramos de ter deixado ali.


Pensamos, talvez, que se trate de ecos, memórias, fantasmas pessoais. Mas o som repete-se, insiste, responde. Não é a nossa voz, é outra. São outros, são outras, são aquelas pessoas que despertam em nós as feridas não trabalhadas.


E quando, finalmente, alcançamos o fundo, ou aquilo que pensamos ser o fundo há ainda algo que não percebemos e que precisamos tratar no próximo Raciocínio.


Bem vindo ao fundo.


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